O cenário climático que se desenha para o Brasil no segundo semestre vai exigir muito planejamento dos produtores rurais, especialmente dos pequenos. A partir do final do inverno, meteorologistas preveem um forte impacto do fenômeno El Niño, com grandes chances de atingir uma intensidade de “super El Niño” até dezembro.

Caracterizado por um aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico, o que altera a circulação atmosférica global e desregula o regime de chuvas e temperaturas, os possíveis efeitos do evento climático são as fortes ondas de calor, com extremos opostos. Enquanto as regiões Norte, Nordeste e partes da Centro-Oeste deverão sofrer com estiagens e precipitações irregulares, no Sul as previsões falam em chuvas em excesso em um curto espaço de tempo.

No campo, há a possibilidade de perda da janela de plantio, redução da produtividade, encharcamento e erosão do solo, disseminação de doenças fúngicas, dificuldades na colheita e estresse térmico dos animais, para citar alguns dos efeitos. No Paraná, os maiores riscos são para as safras de trigo, soja e milho.

Para os pequenos produtores rurais, aqueles com área de plantio de até 50 hectares e que são a ampla maioria no Estado, representando cerca de 85% dos agricultores, os impactos do El Niño devem ser ainda mais fortes em razão das limitações de recursos, principalmente financeiros, para fazer a gestão de risco adequada.

No horizonte, o que se vislumbra é uma combinação de três fatores desfavoráveis: clima, custos e crédito. Com o risco climático alto, há o perigo de quebra na safra de inverno e também na nova safra de verão. Quadro que se agrava em um momento em que a dependência de insumos importados eleva consideravelmente os custos de produção e diminui as margens em razão dos conflitos geopolíticos que se estendem no Leste Europeu e no Oriente Médio.

E para fechar a equação, há uma escassez de crédito barato e um aumento do endividamento do setor, com o encurtamento da oferta de juros subsidiados e o aumento dos valores das apólices dos seguros rurais. O desafio que se impõe aos produtores é cobrir os custos sem gerar mais dívidas em uma atividade que tem visto a inadimplência crescer.

No primeiro trimestre de 2026, a inadimplência da população rural foi de 8,8%, 1,2% acima do mesmo período do ano passado, segundo levantamento do Serasa Experian. O indicador considera dívidas de pessoas físicas vencidas há mais de 180 dias, contraídas com empresas de setores ligados ao agronegócio. O endividamento prejudica a recuperação da capacidade financeira e impacta o fluxo de caixa do setor.

“Até dois anos atrás, a gente tinha praticamente zero endividamento de produtores rurais e hoje é uma realidade triste que a gente está enfrentando”, afirmou a especialista de Seguros Agrícolas e Rurais da Cooperativa Sicredi Dexis, Ana Paula Batista Ferreira de Marchi.

No ano passado, nesta mesma época, comparou Marchi, a comercialização de seguros na cooperativa era entre 30% e 35% maior do que neste ano, mesmo com a ameaça do El Niño. “Não estamos tendo uma procura tão grande de seguros agrícolas, por exemplo, que é um produto que fica muito mais a céu aberto do que as estruturas da propriedade desse produtor. As estruturas, como aviários, por exemplo, estão tendo muito mais procura por causa da previsão das chuvas de granizo para o período do El Niño do que as lavouras.”

Marchi atribui a queda à expectativa em torno do Plano Safra. “Teve muita gente esperando esse período do Plano Safra para ver as novas condições, novas informações do governo em relação a subsídios”, avaliou. Com o lançamento do Plano Safra no início deste mês, a expectativa é que haja um crescimento na procura.

As condições climáticas expõem o agronegócio paranaense a uma situação de alta vulnerabilidade e limitam a margem de manobra para os produtores. Como o plantio de grandes culturas é a céu aberto, a tecnologia tem pouco poder para evitar danos climáticos diretos, especialmente o encharcamento do solo, e o controle do produtor se resume a preparar a terra para evitar prejuízos estruturais, afirmou a coordenadora do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Ana Paula Kowalski.

Mesmo onerando a atividade, destacou Marchi, o seguro deve ser visto como um investimento. “O produtor não precisa dispender de uma matrícula, por exemplo, de um imóvel como garantia de sua operação de crédito e pode ter a segurança de que o seguro vai restituir o montante que ele perdeu em virtude de um sinistro”, reforçou a especialista. “Hoje, o produtor, especialmente o pequeno, precisa de uma proteção. Ele toma o crédito, mas precisa de uma garantia de que vai conseguir honrá-lo, possibilitando que ele se mantenha na atividade.”

Evento climático expõe desigualdade no campo

Em relação ao manejo do solo, as ações imediatas para enfrentar o El Niño devem se concentrar na revisão e reforma das curvas de nível e terraços antes do plantio da soja, que acontece entre o final de setembro e o início de outubro. Preparar o solo com um mix de plantas de cobertura, como a aveia, no intervalo entre as safras, também pode ajudar a proteger a terra.

“É uma situação difícil em que a única coisa que a gente pode reforçar, realmente, são as tecnologias voltadas ao manejo de conservação de solo que permitam que a terra absorva uma quantidade de água maior nesses períodos de enxurrada e que ela esteja com o sistema conservacionista adequado para evitar o corrimento e a erosão”, orientou a coordenadora do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep, Ana Paula Kowalski.

O momento de agir é agora. “Mas temos uma limitação porque tem muitas regiões com cultivo de inverno no campo, então não é possível fazer nenhuma intervenção neste momento.” Essa rigidez do calendário agrícola é apontada por Kowalski como uma desvantagem. O produtor tem pouca flexibilidade para adiar o plantio devido ao sistema de sucessão de culturas. A soja deve ser plantada entre setembro e outubro ou o milho safrinha pode ficar comprometido. “Ele não pode fugir da janela de plantio adequado daquela cultura porque ela é adaptada para aquela condição e porque, logo na sequência, vai vir outra cultura.”

“O pequeno produtor geralmente possui menor acesso à irrigação, crédito, armazenamento, seguro, informação climática e capacidade de absorver economicamente uma safra perdida. Por isso, o mesmo evento climático pode representar redução de lucro para uma grande empresa e perda dos meios de subsistência para uma família rural”, avaliou o biólogo Edson Grandisoli, mestre em Ecologia e Sustentabilidade pela USP (Universidade de São Paulo), pós-doutor pelo Instituto de Estudos Avançados da USP e um dos criadores do Movimento Escolas pelo Clima.

Embora o seguro rural seja a principal ferramenta de proteção financeira, o quadro da agricultura na atualidade é adverso. Falta oferta e sobram restrições, com as seguradoras limitando os riscos por município. Se todos os produtores de um determinado município paranaense quiserem contratar seguro, dificilmente haverá créditos para todos. “A seguradora tem um limite de concentração de risco em determinadas regiões e ela vai tentar mitigar as perdas dela. Então, ela vai selecionar os produtores e quem chegou primeiro tem mais chances de conseguir”, destacou Kowalski.

“O pequeno produtor, geralmente, possui menor acesso à irrigação, crédito, armazenamento, seguro, informação climática e capacidade de absorver economicamente uma safra perdida. Por isso, o mesmo evento climático pode representar redução de lucro para uma grande empresa e perda dos meios de subsistência para uma família rural”, apontou Grandisoli. A proteção, frisou o biólogo, passa pela ampliação e simplificação de programas do governo voltados à proteção do produtor rural contra perdas, como o Proagro Mais e o Garantia-Safra, crédito emergencial, infraestrutura comunitária de água e fortalecimento de cooperativas.

O presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Marcelo Janene El-Kadre, afirmou que o investimento em tecnologia, planejamento e boas práticas já faz parte da realidade do campo e defendeu que o Brasil avance em uma política agrícola que priorize a gestão de risco. “O que esperamos é que as políticas públicas ofereçam condições para que o setor continue produzindo alimentos, gerando renda e contribuindo para a economia, mesmo diante de um ambiente cada vez mais incerto.”

A educação ambiental e a difusão científica também podem contribuir fortemente para amenizar prejuízos, ressaltou Grandisoli. “Dias de campo, unidades demonstrativas e formação continuada ajudam a combater desinformação e aproximam ciência e experiência rural. A educação ambiental também mostra que solo, água, biodiversidade e produtividade são partes do mesmo sistema e que precisam de práticas específicas para continuarem em harmonia.”

Nesse processo, instrumentos de preparação, como a Embrapa e o Zoneamento Agrícola, sistemas de monitoramento, cultivares adaptadas, plantio direto e mecanismos de seguro são de importante utilidade. Entretanto, a adoção dos recursos disponíveis ainda é desigual e muitas decisões são tomadas quando a seca, a enchente ou a perda da safra já são uma realidade, disse o biólogo. “Preparação real exige planejamento permanente por território e cadeia produtiva, recuperação dos solos e mananciais, diversificação, seguros acessíveis, infraestrutura hídrica, assistência técnica e uso sistemático das previsões climáticas.”(S.S.)

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