Os efeitos que o Brasil pode sofrer em decorrência do pacote anunciado pela Argentina são motivo de controvérsia entre especialistas. O coordenador da Área de Análise Conjuntural do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Gilmar Lourenço, acredita que o País não deve ser prejudicado. Já o economista técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), Cid Cordeiro, vê problemas no ambiente doméstico.
Para Lourenço, o comércio entre Brasil e Argentina já está comprometido desde janeiro de 1999, quando o governo brasileiro promoveu a livre flutuação do câmbio, e também por causa da recessão sofrida pelo país vizinho nos últimos três anos. Ele diz que as compras de produtos brasileiros importados pela Argentina, principalmente papel, celulose, máquinas, cigarro e combustível, já estão em um nível baixo.
O coordenador do Ipardes até considera que o momento possa ser muito bom para a economia brasileira. ‘‘O País pode conseguir novos espaços no mercado internacional’’, diz, explicando que isso é provável porque a economia do Brasil está sustentada pelo mercado interno, que corresponde atualmente a 90% do Produto Interno Bruto (PIB).
Na opinião de Lourenço, a Argentina está adiando o que deve ser a solução para a crise: a desvalorização cambial. ‘‘Eles estão envolvidos com o nó do câmbio, porque para mudá-lo seria preciso alterar a Constituição Federal’’, comentou. Mas ele observa que se o peso argentino perdesse a paridade com o dólar, o Brasil seria muito afetado. Essa medida, segundo ele, deixaria a economia argentina mais competitiva, o que a levaria a exportar mais para o Brasil e importar menos.
Já Cordeiro, do Dieese, acha que o Brasil deverá sofrer bastante com a crise na Argentina, porque considera a economia brasileira muito vulnerável a crises internacionais. ‘‘São as consequências dos erros cometidos entre 95 e 98, quando o governo controlava o câmbio’’, avaliou. Para ele, qualquer desequilíbrio no mercado internacional ameaça o financiamento para os pagamentos do déficit interno brasileiro, que hoje representa 4% do PIB.
Porém, Cordeiro concorda com a opinião de Lourenço sobre as importações argentinas, que já estão baixas e não devem sofrer mudanças com o anúncio do pacote. ‘‘A indústria automobilística já direcionou suas exportações para outros países’’, exemplificou. (Rosana Félix)

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