Educação financeira precária prende brasileiro à poupança

Falta de intimidade com o mercado financeiro acaba por assustar as pessoas a procurar alternativas às cadernetas, que se desvalorizam com a queda na taxa Selic

Mariana Presser - Estagiária
Mariana Presser - Estagiária

Há muitos anos, a poupança é o principal fundo de aplicação do brasileiro. Entre os que têm algum tipo de investimento, 89% aplicam nas cadernetas, segundo levantamento da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). Mesmo com rendimentos inferiores a outros fundos de renda fixa, os baixos riscos e a isenção de Imposto de Renda da poupança ajudam a explicar o comodismo. 


Educação financeira precária prende brasileiro à poupança
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No entanto, na última quarta-feira (5), a taxa Selic caiu para 2% ao ano, após o Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, realizar um corte de 0,25 ponto percentual, sendo a 9° rodada de redução. Como reflexo imediato, investimentos em renda fixa mais conservadores, como a poupança, vão ter queda de rendimento, até mesmo abaixo da inflação, o que significa perder dinheiro. Um ano atrás, a taxa Selic era de 6%.  



 

Diante deste novo cenário, muita gente que tem reserva de capital na poupança começa a pesquisar alternativas com maiores rentabilidades. O problema é que a falta de intimidade com o mercado financeiro acaba por assustar as pessoas. De acordo com o vice embaixador da Planejar no Paraná e profissional na área de relação com investidores, Lucas Moratto, o motivo primário da desistência deste assunto sobre investimentos, é a complexidade deste ramo.  

 

“Não acho que a crise tenha chamado a atenção das pessoas para a economia, acho que foram as taxas de juros e as diversas notícias sobre ações sendo valorizadas pelo mundo, e isto torna-se uma ótima oportunidade para que as pessoas busquem conhecer e investir mais em outros meios, como nas bolsas de valores”, opina Moratto. 

 

Segundo ele, a falta da educação financeira vai além de não saber investir. Muita gente, por falta de planejamento, não consegue ao menos poupar. Segundo levantamento feito pelo Datafolha, 65% dos brasileiros não poupam para o futuro, e esse tipo de atitude está muito relacionado ao ensino na base. "Não aprendemos na escola a importância de economizar e investir dinheiro, a população tem tendência a ser imediatista e a gastar mais do que ganha". 

 

“Quando eu estava no primeiro colegial, o momento do país era turbulento e as questões econômicas estavam em evidência. Eu sempre me interessei por investimentos e gostava de ver notícias sobre isso. Estudei economia e sempre trabalhei em ambientes financeiros. Cometi muitos erros no começo, aprendi sobre investimentos na dor, e isso me custou alguns anos. Se você tem, no período do ensino base, alguém que te apresente a importância de se pensar a longo prazo, muitos pontos sobre o assunto começam a ficar mais claros”, conta Moratto. 

 

Lucas explica que para começar a investir a pessoa precisa ter um objetivo. “Eu comecei investindo para ter um dinheiro guardado como reserva de emergência. Meu foco inicial era aumentar minha renda e investir em mim, não necessariamente no mercado financeiro. Hoje, já penso na educação do meu filho e também busco me preparar financeiramente para a aposentadoria”. 

 

Renda fixa X renda variável 

De acordo com o vice embaixador da Planejar, o brasileiro investe muito na poupança e em imóveis, o primeiro motivo é a própria história do Brasil. Nas décadas de 1980 e 1990, período de hiper inflação, as pessoas não conseguiam planejar e investiam na única coisa que conseguiam quando sobrava dinheiro, nos imóveis.  

 

“O Brasil sempre foi muito instável em termos de economia, e as pessoas acham que conseguem resolver isso do dia para a noite. Acabam seguindo dicas superficiais e buscam sempre o caminho mais fácil, o que nem sempre é o mais correto. Quando investem na poupança só veem a rentabilidade, e não como realmente funciona o processo. No final do dia, você estará emprestando dinheiro para o banco trabalhar e até emprestar para outras pessoas", esclarece Lucas Moratto. 

 

Atualmente, a poupança só rende 70% da Selic, e a Selic está rendendo 2% ao ano. Além da pouca rentabilidade temos a questão da inflação, sendo assim, provavelmente deixando o dinheiro na poupança a rentabilidade seria negativa. 

 

Para Moratto, as duas maiores dificuldades dos investidores de renda variável, são as expectativas erradas, as pessoas não entendem que os investimentos em ações são a longo prazo. Ele explica que ação nada mais é do que uma participação em uma empresa, as empresas estão inseridas na economia e passam por momentos bons e ruins, sendo assim, é natural que as ações oscilem. E a maioria das pessoas não tem isso claro, e quando o mercado cai, elas resgatam o dinheiro e desistem de investir.  

 

Investir pode ser complexo, mas não impossível

Raffael Kenzo Tanno tem 25 anos e trabalha como Data Analyst, quando criança adorava mexer com dinheiro, entendia a razão de economizar e na adolescência descobriu que poupar poderia lhe gerar mais dinheiro através dos juros. Quando começou a trabalhar, Raffael se aprofundou em novos mercados, saindo aos poucos da renda fixa e indo para a variável. Já Paulo Ricardo Bueno, que é desenvolvedor com foco em testes de Software, não tinha tanto interesse e nem conhecimento sobre o assunto, até que um amigo do trabalho começou a estudar e comentar com ele sobre a área, foi quando ele viu a variedade de opções que existem e como é possível alcançar ótimos retornos sem depender da poupança e outras modalidades “tradicionais” oferecidas em bancos, como consórcio, capitalização e previdência privada. 

 

“Primeira coisa para você que deseja investir, não comece se você tem dívidas, elimine-as primeiro, monte uma reserva de emergência e somente depois comece a investir. Estude bastante sobre as modalidades, pergunte muito para pessoas que já têm algum conhecimento, avalie qual corretora atende o seu perfil. Se quiser montar uma carteira de ativos, busque ativos sólidos e diversifique, já ouviram aquela história de que não é bom colocar todos os ovos em uma mesma cesta? E por último e não menos importante, foco no longo prazo, enriquecer é como construir um muro, tijolo por tijolo”, instrui Tanno. 

 

Paulo Ricardo Bueno, argumenta que o processo para investir na bolsa é simples, basta fazer um cadastro em uma corretora de valores com seus dados pessoais, dados bancários e preencher um formulário para definir seu perfil de risco. Após concluído esse processo você terá acesso ao home broker da corretora que te dá acesso as modalidades existentes na bolsa (ações, fundos imobiliários, opções, etc). “Qualquer pessoa pode investir e começar com um valor bem baixo. Com R$25,00 você consegue comprar uma cota de uma ação de um dos maiores bancos do país, com R$10,00 você compra uma cota de um fundo imobiliário. Então, você pode começar de forma leve e conforme se sentir mais confortável, vai aumentando seus aportes”, esclarece Bueno. 

 

Ambos acreditam que o aumento de pessoas na bolsa, não necessariamente afeta o preço das ações, mas aumenta a liquidez. Pois, ao mesmo tempo que mais pessoas começam a comprar, outras podem começar a vender. Entretanto, eles acreditam que pode ser também perigoso ver pessoas com pouco conhecimento entrando na bolsa, comprando ativos sem ao menos saber do que se trata, e muitas vezes assumindo riscos desnecessários e até perdendo bastante dinheiro.  


Tudo está conectado, há lados positivos e negativos. Investimento é um processo complexo e oscilante, mas não impossível.




Supervisão: Celso Felizardo, editor de Economia

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