A equipe econômica será forçada a mexer nos juros e na taxa de câmbio ainda no primeiro semestre de 1999. Quem vai determinar o momento desta tomada de decisão será a pressão social que será ‘‘fortíssima’’ neste período. Com o aumento do desemprego, a população vai fechar estradas e supermercados. A avaliação é do economista Luiz Antonio Fayet, que se reuniu ontem, em Curitiba, com o presidente do Conselho Regional de Economia Luiz Eduardo da Veiga Sebastiani e com o economista Norberto Ortigara, da Secretaria da Agricultura. Durante a reunião foi feito um balanço da economia em 1998 e prognósticos para o ano que vem.
De acordo com os economistas, a equipe econômica do Governo Federal começa a admitir que, quatro anos após a implantação do Plano Real, a política econômica adotada fracassou. Segundo Fayet, essa constatação ficou evidente no depoimento prestado pelo ministro da Fazenda Pedro Malan no Senado, quando foi explicar as razões e os termos do acordo com o FMI.
O desequilíbrio cambial iniciado em 1994 é a principal causa da desestruturação do sistema produtivo brasileiro. Para agravar a situação, o acordo firmado com o FMI é recessivo e orienta para a retirada de recursos da atividade produtiva para tapar o déficit público, através do aumento de impostos, explicou Sebastiani. Segundo o economista, no modelo governo/FMI as taxas de juros estão diretamente relacionadas com o déficit público. A imagem que o governo transmite é que o problema do déficit será resolvido com a redução de gastos públicos e aumento de impostos, mas ignora que o déficit é financeiro.
O impacto desta política é perverso sobre o setor produtivo, instalando-se um círculo vicioso de queda dos investimentos, redução do emprego, do consumo, dos lucros e dos investimentos. ‘‘ A última coisa que o empresário pensa em fazer é demitir’’, disse Fayet. Como o índice de desemprego está elevadíssimo, a leitura que se faz é que a empresa brasileira está a caminho do cadafalso. Prova disso é o movimento deflagrado pela Fiesp (Federação da Indústria do estado de São Paulo) que começa a ganhar força com a adesão de outros setores da economia. Segundo Fayet, se os empresários chegaram a esta situação, é porque se sentem na linha de tiro da crise econômica.
Para Fayet, o governo só não promoveu a desvalorização cambial porque não interessa aos grandes grupos multinacionais que se instalaram aqui após o governo Fernando Henrique Cardoso. Ele explicou que é muito mais barato para esses grupos manter a remessa de lucros e pagamento de juros dos recursos capatados a taxas baixíssimas no mercado internacional, com o câmbio engessado. Esses grupos fizeram empréstimos no exterior que resultaram no aumento da dívida externa de R$ 60 bilhões para R$ 160 bilhões, em quatro anos.
Segundo Fayet, se o governo promovesse a desvalorização cambial, em seis meses o País retomaria o rumo do crescimento. Ele disse que o impacto de uma desvalorização cambial sobre a estabilização da moeda seria no mínimo, da ordem de 3% de inflação para uma desvalorização de 20%. Para Ortigara a desvalorização cambial não tem mais como provocar inflação, num quadro de concorrência instalado no país. ‘‘Hoje se o produto não for de qualidade e tiver preço competitivo não vende’’. O economista salientou que não defende a reserva de mercado por parte de grupos econômicos, mas entende que o governo está caindo numa inércia perigosa para a economia do País.Arquivo FolhaPressão popularO economista Luiz Antonio Fayet, ex-presidente do BB e ex-deputado federal, prevê onda de protestosVânia Casado

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