Economista identifica relação entre salário e personalidade
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quarta-feira, 03 de setembro de 2014
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 
São Paulo - As competências socioemocionais, ou não cognitivas, foram o tema do 11º Seminário Itaú Internacional de Avaliação Econômica de Projetos Sociais, realizado em São Paulo na última terça-feira. O evento, com apoio do Instituto Ayrton Senna, reuniu psicólogos, economistas e outros profissionais do Brasil, Estados Unidos e Europa. Entre eles, Miriam Gensowski, economista e professora da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca. Pesquisa realizada por ela mostra que traços de personalidade podem ter impacto na renda dos trabalhadores.
Neuroticismo ou instabilidade emocional; extroversão; amabilidade; conscienciosidade; e abertura para a experiência são as cinco habilidades socioemocionais descritas pela psicologia nos anos 1960 e que norteiam os estudos apresentados no seminário da Fundação Itaú Social. Miriam fez uma avaliação dos salários de 1.500 pessoas que foram acompanhadas de 1922 a 1991, na pesquisa iniciada pelo psicólogo Lewis Terman, com crianças de QI alto (acima de 140) nos Estados Unidos.
A economista busca estabelecer relação entre os salários dessas pessoas quando adultas e características de sua personalidade (registradas com base em análises de professores e pais, assim como em autoavaliações).
Ela concluiu que, para os homens, características como extroversão têm grande impacto positivo nos salários. E o efeito aumenta conforme o grau de escolaridade deles. Homens mais conscienciosos do que a média, com ensino superior, aumentaram seus ganhos ao longo da vida em US$ 233,3 mil, segundo a pesquisadora.
Já a amabilidade teve impacto negativo sobre a renda dos participantes da pesquisa, o que, segundo Miriam, pode significar que pessoas com essa característica sejam menos agressivas em barganhas salariais ou escolham profissões com remuneração mais baixa. Homens mais neuróticos tendem a ter perda salarial se dispõem de ensino superior, mas não são "punidos" em termos de rendimentos caso possuam escolaridade mais elevada.
Ela afirma que focou seu trabalho nos aspectos "monetários" das habilidades socioemocionais. E, além do benefício individual de aumento da renda, diz que o desenvolvimento dessas habilidades se traduz em custos menores para a sociedade. "Quando a escola, além de desenvolver o QI das crianças, também desenvolve as competências emocionais, ela está gerando uma sociedade mais saudável, menos violenta", afirma.
O economista Daniel Santos, da Universidade de São Paulo (USP), também passou a estudar as habilidades emocionais ao investigar as desigualdades sociais do País. "Minha hipótese para o Brasil ser um dos mais desiguais do mundo é a desigualdade na educação. Fui investigar isso", explica.
Ele ressalta que o governo vem investindo cada vez mais em educação e os alunos continuam a tirar nota ruim no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). "Estou convencido que nosso problema é que as crianças não estão preparadas para receber (os ensinamentos)", declara. Santos acredita que a criança chega à escola sem que a família tenha desenvolvido nela as competências socioemocionais. "Há outras características, além da inteligência e da escolaridade, que explicam o sucesso de uma pessoa", declara. Entre elas, segundo o economista, a capacidade de a pessoa se propor a objetivos a longo prazo e de se "apaixonar por problemas", em busca de soluções. "Para muitos é o controle emocional que determina o sucesso, ou então, a abertura para experiências", ressalta. (Com Folhapress)
O repórter viajou a convite da Fundação Itaú Social.


