O mercado retoma os negócios depois do carnaval de olho nos Estados Unidos. O principal evento de hoje é o depoimento do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Alan Greenspan, na Câmara, sobre as condições da economia e política monetária. Como de costume, os investidores vão buscar pistas nas palavras de Greenspan sobre o rumo da política de juros. O mercado brasileiro também vai ficar atento à Argentina e ao rescaldo da crise provocada pela ruptura do senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) com o governo.
Além do depoimento de Greenspan, os investidores também aguardam com ansiedade o anúncio de indicadores americanos importantes, como o índice de atividade industrial da Associação Nacional dos Gerentes de Compra (NAPM, na sigla em inglês), que será divulgado amanhã. Esses números poderão mostrar com mais clareza o ritmo de desaceleração da economia, influenciando o comportamento de Wall Street e de todos os mercados internacionais.
Se o Fed realmente cortar os juros antes da reunião marcada para 20 de março, como o mercado passou a apostar, a bolsa brasileira pode ter um alento. Taxas em queda nos Estados Unidos são positivas para mercados emergentes como o Brasil. Depois de subir com força em dezembro e janeiro, o Índice Bovespa amarga perda de 8,57% neste mês. Esse tombo foi motivado por vendas para realização de lucros e também pela deterioração no cenário externo, principalmente pelo aumento das incertezas em relação à economia americana e pela crise cambial da Turquia, que levou à desvalorização da lira, a moeda local.
O dólar também pode ficar menos pressionado, principalmente se Greenspan cortar os juros. Na semana passada, a moeda americana subiu com força, fechando em R$ 2,037 na sexta-feira. O temor quanto à desaceleração americana, a crise na Turquia e o medo de que os investidores voltem a questionar a política cambial da Argentina foram algum dos fatores que levaram as instituições a buscar refúgio no porto seguro do dólar.
A proximidade do carnaval também contribuiu para aumentar a demanda por hedge cambial, uma vez que, enquanto o mercado brasileiro parou na segunda e na terça-feira, os negócios continuaram normalmente no resto do mundo. E, para não ser atropelado por alguma notícia desfavorável durante o feriado, os bancos preferiram ficar com dólares em carteira. Além disso, o mercado esperava que US$ 500 milhões entrassem no País com a venda da Caixa Seguros (ex-Sasse) para a francesa CNP, mas a suspensão do leilão frustrou essa expectativa.
Uma eventual redução dos juros americanos também pode provocar um recuo das projeções das taxas domésticas, pois isso abre espaço para a queda da Selic em 15,25% ao ano. A questão é que, como mostrou a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) dos dias 13 e 14 de fevereiro, a alta dos preços do petróleo e energia superou as expectativas, e poderão pressionar a inflação. De todo modo, uma eventual queda das taxas nos EUA tenderia a aliviar a pressão sobre o mercado de juros.
O mercado também vai ser influenciado pelo comportamento da Argentina. Depois da crise na Turquia, é possível que os investidores voltem a apostar contra a sustentabilidade da política cambial do país vizinho. E turbulência na Argentina sempre resvala no Brasil. O mercado também vai acompanhar com atenção os próximos passos da crise política na base governista. Até agora, a percepção do mercado é que a ruptura de ACM com o presidente Fernando Henrique Cardoso não deverá afetar a sustentação do governo no Congresso, mas ainda é prematuro dizer que o episódio não terá consequências mais graves.

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