O vice-ministro das Finanças da Alemanha, Caio Koch-Weser, de nacionalidade brasileira (ele nasceu na Fazenda Veseroda, em Rolândia, no dia 25 de julho de 1944) e alemã, em sua passagem pela região na semana passada, quando recebeu o título de ''cidadão honorário'' de sua cidade natal, falou sobre temas que domina, como os reflexos da globalização nas economias mundiais tanto no momento de alto, como nos períodos de baixa, como se verifica na atualidade, por causa da interdependência dos países. Preconiza que a retomada do crescimento deve se iniciar com o reaquecimento do mercado norte-americano, a partir do primeiro trimestre do próximo ano. E disse não acreditar que a crise institucional e econômica da Argentina possa afungentar os investidores internacionais que querem fazer negócios no Brasil.
Em sua vinda ao Paraná, depois de uma ausência de 12 anos, ele disse que ficou surpreso com o estágio em que se encontra a agricultura estadual, resultado da profissionalização do agricultor e a adoção das modernas tecnologias do setor. Além do alto grau tecnológico, que garante ganhos de produtividade, Koch-Weser disse que o Paraná tem tudo para ampliar a participação no mercado europeu, especialmente no alemão, devido à qualidade de seus produtos.
Folha O Senhor teve uma boa impressão da agricultura paranaense. Isto fica apenas no campo do elogio ou também pode significar expansão de mercado internacional?
Caio Koch-Weser O Paraná tem grandes vantagens, a começar pelo solo, que é muito bom. Atualmente, o agricultor é muito mais sofisticado, como consequência da evolução da atividade, ou seja, das novas tecnologias de plantio e colheita. Eu estou bastante impressionado com os índices de produtividade agrícola da região Norte do Estado, uma das melhores do País. São referenciais para que o Brasil possa conquistar novos mercados. Eu insisto que a Europa tem de fazer o seu ''home work'' (lição de casa) para se abrir mais às importações agrícolas dos países emergentes, como o Brasil e a Argentina, com a eliminação de barreiras protecionistas e o fim do subsídios. Mas acho que o Brasil, e principalmente o Paraná, tem grande capacidade para aumentar a produtividade e, assim, elevar a produção agrícola para atender a uma maior demanda externa.

Folha E até que ponto nichos de mercado como o do ''boi verde'' e dos chamados alimentos orgânicos podem contribuir para melhorar as exportações paranaenses?

CKW Estas práticas abrem frente de mercado, principalmente na Europa, onde a consciência ecológica está muito avançada em relação à defesa da saúde e ao critério de alimentos biológicos. E toda a discussão causada pela crise que afetou a produção bovina européia, depois da ''vaca louca'' e de surtos de febre aftosa, deixa claro esse potencial de mercado. Por isso, acredito que o Paraná, se souber avançar bem nesta área, acabará obtendo muitos benefícios.

Folha Por que toda a economia mundial passa por um sério período recessivo?

CKW Os Estados Unidos, depois de quase 10 anos de ''boom'', mesmo com o desenvolvimento impressionante de novas tecnologias, precisou importar capital para financiar o desequilíbrio que tinha em sua conta-corrente, pois dispõe de poupança interna muito baixa. Então, enfrenta desequilíbrios fundamentais, que condicionaram ao reajuste de sua economia. Como atualmente o nível de interdependência, devido à globalização mundial, é muito alto, em comparação ao que havia há 10 anos, todos os mercados são afetados, ou seja, experimentamos os benefícios da alta, com o ''boom'' norte-americano, mas, agora, com o desaquecimento daquele mercado, vivenciamos o momento da baixa. Por exemplo, por causa do grande número de investimentos nos países dos dois lados do Atlântico, o que ocorre nos Estados Unidos tem impacto imediato na Alemanha, não só por meio dos mecanismos normais de investimento e de comércio, mas também na decisão de grandes empreendimentos, que, devido ao alto grau de interdependência, passam a se constituir empresas mundiais.
Folha É possível avaliar em que estágio se encontra esta crise?
CKW Eu acredito que já passamos pela pior parte. Mesmo assim, não dá para fazer previsões, especialmente porque os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos aumentaram o nível de aversão ao risco. Agora, não dá para fazer projeção exata. No entanto, avalio que, a partir do primeiro trimestre de 2002, a economia norte-americana irá se acelerar de novo, com benefícios para todos. Por isso, entendo que, mesmo que não seja grande coisa, vamos ter um crescimento um pouco mais acelerado no ano que vem, o que é importante para as economias emergentes, como a brasileira. No entanto, sou muito pessimista quanto ao destino do Japão, para os próximos anos, porque os problemas daquele país são mais profundos.

Folha A crise argentina pode afetar a imagem do Brasil junto ao investidor internacional de capitais?
CKW: Atualmente, estes investidores têm condições de diferenciar melhor a situação de economias isoladas, do que faziam há quatro anos, quando ocorreu a crise na Ásia Oriental. Ele dispõem de mais e melhores informações, a começar pela transparência das contas nacionais, que têm acesso por intermédio do FMI, ou seja, a economia de cada país se torna melhor conhecida. Por isso, o Brasil não foi contagiado pela crise Argentina, apesar de que o agravamento do quadro vem se acentuando.

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