Economia pós-crise inspira cuidados
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de outubro de 2009
Nelson Bortolin<br> Especial para a FOLHA 
Os piores efeitos da crise econômica já passaram. Disso ninguém duvida. Mas as opiniões dos economistas londrinenses sobre o ritmo de recuperação da economia brasileira e as expectativas para o ano que vem são bem distintas. Para o economista e professor universitário Miguel Arturo, ''teoricamente'' o País está se recuperando. ''Mas o tombo foi muito grande, de 4,5%'', afirma ele referindo-se à previsão de crescimento do PIB brasileiro antes da crise - estimativa que agora está em torno de 0%.
Para Arturo, o risco para 2010 é de aceleração da inflação. ''Acertadamente, para conter a crise, o governo lançou R$ 40 bilhões no mercado. Isso vai gerar pressão inflacionária. Como é um ano eleitoral, não sei se o governo vai querer tomar medidas de combate à inflação'', afirma. A possível saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para ser candidato no ano que vem preocupa o professor. ''E se entra um sujeito que quer fazer política partidária no BC?'', questiona. Segundo ele, outro ''fator complicante'' é a valorização da moeda brasileira aliada à estagnação da economia mundial. ''Isso pode complicar muito nosso comércio internacional'', avalia.
Também professor universitário e economista, Flávio Oliveira dos Santos considera que ''o pior já passou''. ''O comércio está vendendo bem, os empregos voltando aos níveis anteriores.'' Ele acredita que a queda da taxa Selic garantiu que o Brasil não mergulhasse tão fundo na crise. ''Diferentemente dos países mais desenvolvidos que, historicamente, já tinham juros baixos e os cortes não representaram quase nada, no Brasil, a queda das taxas teve grande impacto no mercado interno. Uma redução de 12,5% para 8,75% é bem significativa'', calcula.
Santos não acredita em aumento importante da inflação. ''O governo tem conseguido controlá-la. Pode até crescer um pouquinho devido ao excesso de demanda. Mas melhor um pouquinho de inflação do que deflação, que significa crise.'' Ele afirma que o consumidor tem de fazer seu papel, principalmente nas compras de final de ano, pesquisando preços.
Renato Pianowski, outro economista e docente de ensino superior, acredita que o ''estrago que tinha de ser feito já aconteceu''. ''Agora, as pessoas estão achando que a crise terminou e tocando o barco.'' Para ele, o governo Lula foi ''muito inteligente'' ao tomar medidas como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Mas se fosse inteligente mesmo, diz o professor, reduziria agora a carga tributária. ''Não é possível um governo com a aprovação como a deste não fazer a reforma tributária. Faltam competência e coragem. Se diminuísse a carga tributária, o consumidor continuaria comprando e todo mundo sairia feliz desta história'', afirma, sem acreditar nesta medida.
Seus colegas também se mostram descrentes quanto à possibilidade de redução de impostos. ''Não dá para baixar. Só se o governo cortasse gastos públicos e não tem como, ainda mais sendo o ano que vem um ano eleitoral. O próximo presidente vai herdar uma situação complicada'', diz Miguel Arturo. ''Como o governo vai financiar a expansão de gastos que tem sido crescente? O que pode acontecer é aumentar a receita apertando o cerco contra os sonegadores'', opina Flávio Santos.


