Antes queridinho, carro já não é mais unanimidade entre jovens

Alto custo de manutenção, combustível e outras despesas envolvidas fazem público optar por aplicativos de transportes e até aluguel de veículos, em caso de viagens

Débora Mantovani - Estagiária
Débora Mantovani - Estagiária

“Acredito que um jovem comprar um carro atualmente não é mais a regra, é a exceção”. Dessa maneira a estudante Giovana Borghesi, de 21 anos, sintetiza as complexidades para a população jovem em adquirir o primeiro automóvel. “Um carro tem muitas despesas que vão além da compra e eu não teria condições de manter as parcelas, a gasolina, seguro e outros gastos”, conta. O estudante Gustavo Raffi, de 26 anos, apesar de já ter um carro, concorda. “Com certeza a situação econômica atual dificulta, com o preço do combustível altíssimo e dos carros novos também, além de ter que pagar impostos, seguro, e ter um dinheiro guardado para alguma emergência”, ressalta.


 

Antes queridinho, carro já não é mais unanimidade entre jovens
iStock
 


E não são só os estudantes que confirmam. Um levantamento conduzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), publicado em abril de 2021, revela que a pandemia prejudicou especialmente os jovens em idade de inserção no mercado de trabalho. A taxa de desocupação de pessoas de 18 a 24 anos subiu, de 23,8% no quarto trimestre de 2019, para 29,8% no mesmo período de 2020. Isso representa 4,1 milhões de jovens à procura de emprego no Brasil ao final do primeiro ano da pandemia.


O professor de Economia na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e delegado da regional de Londrina do Corecon-Pr (Conselho Regional de Economia) Emerson Zuan Esteves aponta essa situação econômica agravada pela pandemia como um dos principais obstáculos para a compra do primeiro carro. “É preciso pensar bem se este é o melhor momento para adquirir o primeiro carro”. O economista comenta que, além do aumento do desemprego entre jovens, pode não ser a melhor época até mesmo para os jovens que estão empregados. “Por exemplo, se você já estiver pagando mensalidades da faculdade, vão caber no seu orçamento as prestações de um carro e todas as demais despesas?”, reflete. “Então, às vezes, não é o melhor momento, mas você já pode começar a fazer uma poupança para o futuro, e planejar para um momento que for mais ideal”.


Esteves explica que é importante fazer uma análise bastante crítica das próprias finanças para poder começar a planejar a compra de um carro. “Você deve primeiramente conhecer os gastos, tanto os que você já tem como calcular os que terá com o carro”, aconselha. “É preciso refletir se sua vida financeira está organizada, e se é o momento certo para acrescentar esses novos gastos”.


O economista indica que, primeiramente, os jovens listem as despesas que já têm para conhecer exatamente o quanto gastam por mês. “Depois de hierarquizar esses gastos, você vai poder visualizar qual é a porcentagem do seu salário que está indo para cada conta essencial, e então conseguirá identificar em quais áreas é possível diminuir os gastos”, orienta. Depois disso, é importante conhecer as opções. “Normalmente, comprar um carro à vista não é uma opção muito acessível para os jovens. É importante, então, pesquisar bem antes de iniciar um financiamento”, explica.


LEIA MAIS:
Maioria dos jovens já usa mais bancos digitais do que tradicionais

Vai comprar o primeiro imóvel? Responda algumas perguntas antes

“Se escolher fazer um financiamento, é importante conhecer os tipos que existem e analisar qual será o mais adequado. Deve-se escolher com cuidado o número de parcelas e calcular os juros. Quanto mais parcelas, mais juros você paga”, aponta. O professor ressalta também a importância de pedir dicas para familiares e amigos que tenham mais experiência, e que possam indicar instituições financeiras que tenham boa reputação. “Também é importante buscar avaliações na internet e conversar com alguém que já tenha feito financiamento. Visite financiadoras e faça simulação do financiamento, para poder ter uma comparação e ver qual será mais indicada”, instrui.


“Para o financiamento, é recomendado que a parcela seja em torno de 15% do valor do seu orçamento”, diz. “E aí tem os tipos de financiamento, que são três: o CDC (Crédito Direto ao Consumidor), Leasing e Consórcio”, explica. Esteves revela que é importante pesquisar sobre as vantagens e desvantagens de cada modalidade, antes de tomar uma decisão. “Por exemplo, o CDC tem a vantagem de poder quitar o financiamento antecipadamente, o que pode resultar em algum abatimento de juros. A desvantagem é que, além das parcelas, você tem que pagar o IOF (Imposto sobre a Operação Financeira), e a TAC (Taxa de Aprovação de Crédito)”, exemplifica. Ele indica que os jovens pesquisem mais detalhes e especificidades de cada modalidade para avaliar qual se encaixa melhor com as suas possibilidades.


Com relação aos impostos anuais, o economista explica que é importante se preparar ao longo dos meses. “Uma dica dos especialistas em finanças pessoais é que uma época boa para se organizar é o final do ano, porque é quando nós recebemos o décimo terceiro, às vezes até férias remuneradas, então é recomendável utilizar uma parte desse valor para os gastos maiores, e até seria bom antecipar algumas parcelas do seguro.”, indica o economista.


“Os gastos com os carros você pode classificar em duas categorias, as despesas imediatas, como IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores), o Seguro DPVAT (Danos Pessoais por Veículos Automotores Terrestres), licenciamento, e as mensais, o combustível, o seguro, que também pode ser pago mensalmente, e manutenção”, pontua. “Também se encaixam aqui alguma revisão que você faça no carro, às vezes o local que você trabalha precisa pagar o estacionamento para deixar o carro, e é importante deixar sempre um dinheiro reservado para imprevistos”, recomenda.


Mas, afinal, será que vale a pena? 

A estudante Giovana Borghesi conclui que ter um carro próprio pode ser uma necessidade para alguns jovens e que, no fim, a escolha de adquirir um veículo deve levar em conta as demandas pessoais de cada pessoa. “Eu vejo muito também como uma questão cultural às vezes, de geração mesmo! Vejo muitos amigos querendo ter o próprio carro, mas a grande maioria se contenta em apenas ter a carteira e continuar utilizando o carro dos pais ou utilizar transporte público e aplicativos de transportes”, avalia.


“Eu estou fazendo autoescola somente agora, com 21 anos e foi mais por um pedido dos meus pais do que vontade minha”, revela Borghesi. Ela explica que demorou para iniciar a autoescola porque acredita que adquirir um carro ainda é um planejamento distante, pois não teria como arcar com os custos. “Hoje está difícil ganhar mais do que um salário mínimo como jovem. As empresas pedem um ‘milhão de coisas’ e experiência (sendo que você acabou de se formar, por exemplo) para te pagar pouco mais que um salário mínimo”, desabafa. “Meus pais ainda me bancam em muitas coisas já que moro com eles ainda, mas imagino que pra um jovem que tem de pagar aluguel e as próprias contas com a média salarial moderna é praticamente impossível comprar carro. Vira artigo de luxo”, conclui.


O estudante Gustavo Raffi, que possui um carro, conta que também não era sua prioridade imediata adquirir um automóvel. “Tive meu primeiro carro aos 21 anos, foi um presente do meu pai. Para ele era importante por causa da segurança e conforto e ele queria muito que eu tivesse um carro, pois quando ele tinha minha idade queria um, mas não tinha condições de comprar”, conta. Raffi sugere, porém, que esta não é a melhor época para iniciar o financiamento de um carro. “Os gastos são enormes e, na pandemia, não o usamos tanto, e mesmo parado eles geram gastos. Tive de trocar a bateria, pois acabou morrendo”, revela.


Nesse contexto, o estudante aconselha, para quem pensa em comprar um carro, que avalie bem se é uma decisão indispensável. “Recomendaria fazer a análise dos pontos de ônibus perto de casa e dos locais que a pessoa precisa ir, o preço das viagens de aplicativos de transporte em relação aos gastos totais com o veículo. Na maioria das vezes, aplicativos de transportes compensam. E, em caso de viagens longas, aluguel de carro também vale a pena”, indica.

Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Últimas notícias

Continue lendo