Davos - 2006 será mais um ano positivo para a economia global, segundo a maior parte da elite de economistas que se reúne anualmente no Fórum Econômico Mundial, em Davos. A ironia é que muitos destes analistas reconhecem que o bom desempenho do mundo ocorre na contramão das suas próprias previsões e alertas sobre os grandes desequilíbrios que, a qualquer momento, poderiam interromper o excepcional desempenho. Em outras palavras, a economia mundial parece estar vencendo os céticos pelo cansaço, e aumentam as apostas na continuidade do crescimento, mesmo com riscos como a alta do petróleo e o colapso do mercado imobiliário americano.
No tradicional painel sobre a conjuntura econômica global que abre o Fórum, Laura Tyson, ex-conselheira do presidente Bill Clinton e atual reitora da London Business School, deu a tônica do debate entre alguns dos mais renomados economistas do mundo: ''Temos de vir com humildade este ano porque muito do que prevemos para 2005 não aconteceu'', afirmou.
As previsões furadas foram as de que o dólar ia cair contra as principais moedas e as taxas de juros subiriam no mundo todo. Isto, por sua vez, poderia provocar uma quebra de confiança na capacidade de os Estados Unidos financiarem seu gigantesco déficit em conta corrente - de US$ 800 bilhões, ou mais de 6% do PIB, em 2005 -, e causar forte turbulências na economia global.
O que se viu em 2005, porém, foi o dólar recuperando-se e juros internacionais extremamente baixos, apesar da alta da taxa básica dos Estados Unidos, conduzida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Neste cenário, o mundo, mais uma vez, seguiu em frente, com forte crescimento de 4,1%, puxado pelos Estados Unidos e pela China e ignorando os grandes desequilíbrios globais. ''Estou muito otimista com o mundo'', disse, em outro evento em Davos, o economista chefe do Goldman Sachs, Jim O'Neill.
Segundo Tyson, ''em 2006 descobrimos que um mundo desequilibrado pode ser mais estável do que pensávamos e que é possível que haja altos preços do petróleo sem impacto no crescimento e na inflação (do mundo)''. Apesar deste comentário, houve consenso de que os maiores riscos globais neste ano ainda são a alta do petróleo ou uma reviravolta súbita no ímpeto dos consumidores americanos (que ainda são o principal motor da economia global), provocada por um colapso do mercado imobiliário naquele país. Porém, para Tyson, Jacob Frenkel, vice-chairman do American International Group (AIG) e Min Zhu, da cúpula do banco central chinês, o quadro não é ameaçador.
A exceção no otimismo, como sempre, ficou por conta de Stephen Roach, economista-chefe do Morgan Stanley, conhecido por sua visão pessimista. Para ele, ''o fato de que os Estados Unidos conseguiram em 2005 financiar com facilidade o seu déficit enorme e sem precedentes por causa da política desesperada dos bancos centrais asiáticos de comprar dólares não significa que este financiamento será sempre fácil''.
Roach disse estar preocupado com a atitude do mercado financeiro e das principais autoridades econômicas mundiais de considerar que 2005 foi uma espécie de ano decisivo, no qual o fato de não ter havido nenhum choque negativo significou que a economia global pode conviver muito mais tempo com os atuais desequilíbrios. O economista observou que isto está levando ''a um grau perigoso de complacência.''

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