Antonio Carlos Seidl
Agência Folha
Tradicional termômetro do nível de atividade econômica, o setor brasileiro de embalagens vê com pessimismo as perspectivas de crescimento da economia do país neste segundo semestre.
A Abre (Associação Brasileira de Embalagens) diz que o setor, depois de
uma pequena melhora em junho, entrou novamente em retração em julho. Um estudo da Arthur Andersen mostra que foram adiados, ou estão em fase de revisão, investimentos da ordem de R$ 770 milhões previstos pelos fabricantes de embalagens para alimentos e bebidas. Esse valor é ligeiramente inferior ao montante de R$ 1 bilhão anunciado como intenção de investimentos do setor nos próximos três anos.
O mercado de embalagens fechou 1998 com faturamento estável em relação a 1997 em reais - R$ 11,96 bilhões -, mas com queda de 7% em dólares - US$ 9,6 bilhões, de acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas. Sérgio Haberfeld, presidente da Abre, disse que o setor está pessimista. ‘‘A única esperança é o crescimento das exportações, já que os exportadores de alimentos, por exemplo, estão recorrendo a embalagens fabricadas no país num processo de substituição de importações, mas, internamente, as vendas estão estagnadas e a produção, em queda.’’
No primeiro trimestre deste ano, o volume de produção de embalagens
apresentou queda de 2,83%. Segundo a Abre, o setor de embalagens não
sofreu mais nesse período porque parte do consumo de produtos importados passou a ser absorvida pelos produtos nacionais.
Para o presidente da Abre, o setor de embalagens está sendo afetado, assim como todos os segmentos da economia brasileira, pela queda do nível da
atividade industrial e com a incerteza quanto à retomada do crescimento. ‘‘Depois da desvalorização cambial em janeiro, a situação parecia preta. Em junho, houve pequena melhora, mas desde julho estamos sentindo nova
retração.’’
Haberfeld descarta ‘‘milagres’’ para resolver os problemas econômicos
brasileiros. Para ele, o país tropeça na falta de pulso do presidente
FHC para pôr em prática um ajuste fiscal definitivo, adotar uma política industrial de apoio às exportações e obter a aprovação das reformas administrativa, tributária e da Previdência Social no Congresso Nacional.
‘‘Sinto que está faltando um comandante com pulso forte para liderar’’,
afirmou. Haberfeld cobra mais ação de FHC porque, na sua opinião, o presidente tucano ‘‘já falou demais’’. Segundo Haberfeld, o presidente é ‘‘uma grande decepção’’ para os empresários. Roberto Torres, diretor da área de embalagens da Alcoa, empresa de capital norte-americano líder do setor de embalagens no Brasil, principalmente de garrafas de plástico descartável para bebidas, e na América do Sul (faturamento regional de US$ 350 milhões), disse que o segmento vive um momento de cautela.
A desvalorização do real em relação ao dólar, disse, está na origem dos
problemas atuais de um setor que opera com pequena margem de lucro e que importa matérias-primas. Com relação às exportações, o setor garante que o concorrente maior está dentro do País: é a excessiva carga tributária.
O setor de embalagens não tem flexibilidade de preços para absorver esse aumento acentuado de custos numa economia em que o mercado consumidor permaneceu com o mesmo poder aquisitivo em reais.’’ Segundo Torres, a indústria de embalagens busca alternativas, procurando recuperar uma parte do aumento de custos por meio de ganhos de produtividade.
As empresas brasileiras planejam investir R$ 1 bilhão no setor de embalagens para alimentos e bebidas nos próximos três anos. Mas a incerteza quanto à retomada do crescimento econômico do país causou o adiamento ou a revisão de
investimentos da ordem de R$ 770 milhões. Dos investimentos confirmados, 89% serão destinados ao aumento da capacidade produtiva, 6% à melhoria operacional e apenas 5% ao desenvolvimento de novos produtos.

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