Diante da fraqueza dos indicadores econômicos no primeiro semestre, os agentes do mercado financeiro passaram a considerar, pela primeira vez no ano, que a taxa básica de juros, a Selic, precisará ser reduzida dos atuais 6,50% para 5,75% até dezembro. Isso porque o Boletim Focus divulgado na segunda-feira (17) pelo BC (Banco Central) também estreou uma perspectiva de variação do PIB (Produto Interno Bruto) em 2019 abaixo de 1%, em 0,93%.

O debate sobre a necessidade de reduzir juros diante de um quadro de inflação em baixa e baixo consumo das famílias no País não é novo. Analistas ouvidos pela FOLHA anteciparam o movimento e chegaram a estimar uma redução até 5,50% em reportagem publicada em 29 de abril deste ano. No entanto, é a primeira vez que o relatório do BC apresenta o tema como tendência.

Segundo o boletim Focus desta semana, porém, os cortes de juros serão a conta-gotas. A previsão é que a Selic seja mantida em 6,50% ao ano em agosto, caia para 6,25% em setembro, para 6% em outubro e para 5,75% na reunião de dezembro.

O presidente do Corecon (Conselho Regional de Economia) do Paraná, Carlos Magno Bittencourt, condiciona a mudança de posicionamento justamente porque a perspectiva de crescimento da economia desceu para menos de 1%. “Isso requer que o BC, em um momento de crise, tome um movimento anticíclico”, diz. “A inflação está entre as menores dos últimos dez anos e isso também capta o sentimento de que o consumo está em baixa.”

O movimento, por outro lado, teria efeito prático sobre a economia somente seis meses depois de iniciado, explica o presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes. “É uma medida que gera expectativa positiva. O Banco Central, com esses cortes, vai fomentar a economia e, como não há risco inflacionário, não corre o risco de dizerem que tomou uma atuação política”, afirma.

Para o professor de economia Sidnei Pereira do Nascimento, da UEL (Universidade Estadual de Londrina), é importante que os investidores recebam boas notícias para que passem a enxergar melhor o futuro, que ele considera nebuloso no momento. “As políticas econômicas tomadas pelo governo são desencontradas e a credibilidade da equipe econômica está baixa. A própria demissão do presidente do BNDES [Joaquim Levy] no último fim de semana minou essa credibilidade, porque o presidente [Jair Bolsonaro] tomou uma postura que não é a esperada de um chefe de Estado”, cita. Nascimento se refere a Bolsonaro dizer, publicamente, que o indicado estava com a cabeça a prêmio, o que levou Levy a entregar o cargo.

OUTRAS MEDIDAS

Os economistas entendem que a redução da Selic ainda será pouco, diante do desaquecimento econômico. “É um incentivo, mas por si, só, não estabelece certezas para o investidor. O grande incentivo é ter consumo interno e o governo precisa encontrar instrumentos para fazer a economia girar e para esse corte de juros chegar realmente ao consumidor”, diz Nascimento. “Em algum momento vão ter de fazer algo, liberar o FGTS e o PIS, porque ficar só falando em reforma da Previdência não vai resolver”, completa Antunes.

Há divergência entre os analistas ainda somente na forma como os cortes de juros devem ser feitos até o fim do ano. “Não me surpreenderia se houvesse um corte maior e de uma vez, apesar de a expectativa geral ser de 0,25 ponto percentual por reunião”, cita o presidente do sindicato londrinense. “Deve ser de forma gradativa, a não ser que o Bolsonaro e o [ministro da Economia, Paulo] Guedes insistam em uma queda abrupta, o que não acredito que ocorra porque existe a independência do Banco Central”, diz Bittencourt.

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| Foto: Folha Arte
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