BRASÍLIA, DF - A piora de percepção sobre a economia nacional fez os brasileiros levarem o tópico ao topo da lista dos principais problemas do país, de acordo com pesquisa feita pelo Datafolha neste mês de abril. O tema agora é mais citado do que a violência.

A economia já havia avançado na preocupação dos entrevistados no levantamento anterior, de dezembro. Mas desde então escalou dez pontos percentuais e agora é apontada por 22% dos entrevistados como o principal empecilho do Brasil, dividindo com a saúde o primeiro lugar entre os temas mais citados.

Na pesquisa, o entrevistado ouve a pergunta: "Considerando as áreas que são de responsabilidade do governo federal, na sua opinião qual é o principal problema do país hoje?".

A resposta é espontânea e única. Entram no campo da economia afirmações correlatas dos entrevistados, como "crise econômica", "inflação", "preço elevado dos alimentos" e "aumento da cesta básica".

O presidente Lula (PT) tem demonstrado preocupação especial com o impacto gerado pela escalada do preço dos alimentos em sua popularidade, citando o tema em discursos e chegando a dizer que busca o "pilantra" responsável pelo encarecimento dos ovos.

Em meio à pressão da inflação, o presidente viu sua aprovação atingir no começo do ano o pior patamar de todos os seus mandatos, embora na pesquisa Datafolha deste mês tenha conseguido uma leve melhora na proporção dos que avaliam sua gestão como ótima ou boa.

Nessa mais recente rodada da pesquisa Datafolha o presidente Lula aparece como favorito em todos os cenários de primeiro turno e segundo turno em que seu nome foi testado.

Impostos zerados

Para tentar limitar a aceleração dos preços nos mercados, o governo zerou em março o imposto de importação para diferentes produtos. A lista inclui carne, café, milho, óleo de girassol, óleo de palma, azeite, sardinha e açúcar.

Lula tem prometido que os valores vão recuar. "A carne vai baixar. O [vice-presidente Geraldo] Alckmin tem feito muita reunião. Com o pessoal da soja, que produz o óleo, com o pessoal do milho, que produz o óleo, com o pessoal que produz carne. Queremos encontrar uma solução", disse o presidente em meados de março.

A pesquisa foi feita entre 1º e 3 de abril de 2025 - três semanas após a divulgação de que o país registrou uma inflação de 1,31% em fevereiro, um recorde para o mês. Foram realizadas 3.054 entrevistas, distribuídas em 172 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

No caso da saúde, o governo Lula afirma que o teto de gastos anterior prejudicou políticas públicas - o que exigiu uma tarefa de reconstrução nos últimos anos. No entanto, o tema continua no topo das preocupações dos brasileiros, sendo ainda mais citado percentualmente agora do que em dezembro.

Depois de economia e saúde, a maior preocupação dos entrevistados é com a violência - em que estão incluídas também respostas como "segurança", "polícia" e "criminalidade". Do total de entrevistados, 11% citam o tema.

A pauta da segurança pública é explorada principalmente pela base bolsonarista, que busca apontar deficiências do governo na área. O item chegou a figurar no topo das preocupações dos brasileiros no primeiro ano da atual gestão, e o governo tentou reagir ao propor uma PEC (proposta de emenda à Constituição) voltada a combater o crime. O texto ainda não foi enviado ao Congresso.

A preocupação do brasileiro com o tema caiu no fim do primeiro ano da gestão Lula 3 e, desde então, vem oscilando dentro da margem de erro.

Completam a lista de problemas mais citados pelos entrevistados educação (9%), corrupção (7%), desemprego (5%), fome (4%), desigualdade social (2%), má administração (2%) e política (1%).

Desemprego, fome e desigualdade social são os itens com queda mais relevante na lista das preocupações (na comparação com a pesquisa de dezembro), sendo os únicos a recuarem além da margem de erro.

Piora na economia

O grupo dos brasileiros que viram a economia nacional piorar nos últimos meses cresceu dez pontos percentuais desde o fim do ano passado e agora representa 55% do total, de acordo com a pesquisa Datafolha. É a primeira vez no terceiro mandato de Lula (PT) que a fatia corresponde à maioria dos entrevistados.

Os números são acompanhados pela percepção dominante de que a inflação vai continuar acelerando, embora o pessimismo com os preços tenha arrefecido desde a pesquisa anterior, de dezembro. Para a maior parte dos entrevistados, o poder de compra dos salários vai encolher nos próximos meses.

O crescimento da visão negativa foi alimentado principalmente pela mudança de opinião dos que antes não percebiam melhora ou piora do quadro. As respostas do grupo que não acha ter havido mudanças caiu oito pontos em relação a dezembro, de 31% para 23%.

Já o grupo dos que viram a economia do país melhorar teve estabilidade. As respostas nesse caso oscilaram um ponto para baixo (dentro da margem de erro) e ficaram em cerca de um quinto da população - 21%.

Nos quatro principais recortes (gênero, idade, escolaridade e renda familiar mensal), quem mais manifesta a sensação de que o cenário do país piorou são os mais jovens, de 16 a 24 anos (61%), os que ganham acima de dez salários mínimos (60%) e os que estudaram até o ensino médio (60%).

Quando a pesquisa olha para o futuro, o pessimismo é menor. Mesmo assim, os que apostam em uma piora da economia agora lideram as respostas - também pela primeira vez sob Lula 3.

Aqueles que esperam uma deterioração econômica no país nos próximos meses representavam 28% do total em dezembro - agora, são 36%. Os que não preveem mudanças caíram de 37% para 32%. E os que acreditam em melhora oscilaram de 33% para 29%.

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