Economia de travessia
Antoninho Marmo Trevisan
No ritual da Tucandeira, o indiozinho, para se tornar homem, precisa colocar a mão numa luva de palha com ferozes formigas negras da Amazônia e permanecer com ela durante três horas. Esse ritual se repete por 20 vezes, até que o indiozinho é declarado um adulto e, aclamado pela tribo, conquista um novo status. Trata-se de um verdadeiro rito de passagem em que, superado o sofrimento, instala-se uma condição superior.
É mais ou menos o que estamos vivendo na economia brasileira. Sofre-se com os juros altos, o endividamento crônico, os déficits fiscais, com mais impostos e, claro, com o desemprego. Estas são as nossas formigas Tucandeiras.
Estaremos realmente vivendo um rito de passagem, com crescimento logo à frente, ou caminhamos para uma crise social sem precedentes? Para responder, vamos mapear o Brasil. O que está acontecendo nos Estados brasileiros? Uma verdadeira revolução! Alguns organizam suas contas, enquanto realizam investimentos em infra-estrutura. Outros privatizam suas estatais e atraem investidores do mundo todo. São novos aeroportos e hidrovias que estão sendo recuperados; rodovias que passam a ser operadas por terceiros; portos que estão sob concessão privada; energia oferecida em novas modalidades e até água e saneamento ganham o interesse de capitais financeiros. As telecomunicações criam novos paradigmas e derrubam o mito do telefone caro. Todos tratam de aprontar a casa para receber visitas. São os empresários e investidores do ciclo virtuoso da economia, os que produzem bens e serviços para serem consumidos. São empresas de construção civil, fabricantes de bebidas, processadores de gêneros alimentícios, fabricantes de geladeiras, donos de cadeias de varejo, gestores de tv a cabo, investidores em parques temáticos, fábricas de autómoveis e uma infinidade de interessados. Querendo o quê? Colher os frutos de um mercado em expansão no maior país da América do Sul!
O problema é que, enquanto isso, as malvadas formigas Tucandeiras nos atacam de todos os lados. É possível que, como o indiozinho da Amazônia, tenhamos que aguentar um pouco mais para podermos expandir a economia e passarmos a colher os frutos deste enorme rearranjo porque passa o Brasil. O nosso rito de passagem.
É que, pela ordem, quem sempre dá o pontapé inicial no jogo da retomada econômica é aquele setor que vai tornar viável a instalação das outras atividades. É o caso também do segmento de máquinas e equipamentos. Ninguém compra uma máquina para consumi-la. Ela vai servir para gerar produção. Como as muitas empresas de softwares que estão vindo para cá, interessadas na demanda provocada pela competitividade que leva empresas a buscar qualidade na gestão. E na educação? Há uma revolução instalada, porque as pessoas estão requerendo mais conhecimento. É o caso das escolas de línguas. Cada vez mais os jovens querem aprender inglês e espanhol. Aumenta a procura por escolas onde essas línguas sejam ensinadas para as crianças em fase de pré-alfabetização.
Enquanto isso, trava-se uma batalha na área pública. Serviços públicos municipais tendem a ficar mais caros. É que as cidades também acordaram para o novo momento. Precisam fazer investimentos para atrair interessados em implantar negócios. E, acima de tudo, estão descobrindo que suas finanças dependem de si mesmas. Prestem atenção no meio ambiente. Andem pelas praias. Começam a ficar limpas, com a participação da população. Enumerem as organizações do terceiro setor voltadas para apoiar os mais carentes. Multiplicam-se.
Contudo, como num legítimo rito de passagem das culturas tribais, é inevitável passar por um período de sofrimento antes de ingressar num novo estágio de crescimento e integração. Que não seja tão doloroso, que não cause tanta dor, angústia e desespero e que leve o País a um verdadeiro salto de desenvolvimento e maturidade.
ANTONINHO MARMO TREVISAN é presidente da Trevisan Auditores e Consultores.
E-mail: [email protected]

mockup