Os efeitos econômicos do maior atentado terrorista nos EUA podem ajudar o Brasil a consertar a balança comercial. Significa fechar o ano com saldo positivo (exportar mais do que importar). Mas o superávit não é motivo para o governo dar pulos de alegria, dizem os economistas. É consequência de uma parada abrupta da economia brasileira.
A retração mundial freou ainda mais o consumo interno e provocou a disparada do dólar. Por isso, o País já importa menos e, portanto, sente menos pressão sobre as contas externas. Economistas de bancos e consultorias passaram a última semana refazendo as previsões para a economia brasileira, considerando o impacto dos ataques terroristas.
A notícia é até boa. A maioria deles estima, agora, superávit entre US$ 1 bilhão e US$ 1,5 bilhão para este ano. Um mês antes, eles falavam em déficit comercial de até US$ 1,6 bilhão. Como o consumo caiu, as empresas colocaram o pé no freio da produção, o que resultou na redução das importações de matérias-primas e produtos finais.
Seria motivo para festejar o saldo positivo da balança, se ele fosse resultado de uma importação menor, como consequência da substituição de bens estrangeiros por nacionais. Não é o caso. As indústrias estão desestimuladas a investir no País. Primeiro: os juros estão elevados. Segundo: não há perspectiva de expansão na demanda no curto prazo. E mais: elas têm de arcar agora com o ônus da inadimplência, que se elevou nos últimos meses. Carlos de Paiva Lopes, presidente da Abinee, associação da indústria eletroeletrônica, diz que até agora também não saíram as regras para a nacionalização de componentes.
O fato é que, ao mesmo tempo em que registra superávit maior - o que cai bem aos olhos dos investidores estrangeiros -, o País vai ter de enfrentar um crescimento menor do PIB (Produto Interno Bruto), ver o adiamento de investimentos e ainda a queda da massa salarial.
Para ter uma idéia do tamanho do tombo nas importações, reflexo da economia em marcha lenta, há empresas que praticamente pararam de buscar matérias-primas lá fora. Caso do setor de telecomunicações. ''Algumas empresas estão dando marcha à ré mesmo, importando quase zero'', afirma Ernani Brune, gerente de compras da Siemens, fabricante de equipamentos eletrônicos. ''As previsões mudaram radicalmente após o dia 11 de setembro'', afirma Andrei Spacov, economista do Unibanco. Se o dólar ficar na faixa de R$ 2,70, diz, o Brasil fecha este ano com superávit comercial de US$ 1 bilhão.
A projeção do banco feita há um mês era de saldo positivo de US$ 500 milhões. Há dois meses, previa déficit de US$ 1 bilhão. O banco Santander mudou sua previsão de déficit de US$ 400 milhões para superávit de US$ 1 bilhão. O Citibank, que reviu seus números na sexta-feira, alterou sua projeção de déficit de US$ 1,6 bilhão para superávit de US$ 400 milhões. O Lloyds ainda trabalha com estimativa de déficit - US$ 500 milhões -, mas menor do que previa - US$ 1,6 bilhão.
Vários setores estão contribuindo para reduzir a pressão nas importações: têxteis, combustíveis, informática, automóveis e componentes eletrônicos. Esse último foi um dos itens de destaque na pauta de importações. Em março, o Brasil comprou US$ 602 milhões em componentes eletroeletrônicos. Em junho e em julho, as importações caíram para US$ 499 milhões e US$ 510 milhões. ''E vão continuar caindo. O consumo desabou'', diz Paiva Lopes, da Abinee.
Os combustíveis também pressionam menos a balança. Em junho, o País importou o equivalente a US$ 721 milhões. Em julho, US$ 651 milhões e, em agosto, US$ 591 milhões. Essa queda, segundo os economistas, é resultado da alta do dólar e do preço do petróleo no mercado internacional.
No ramo têxtil, a situação se repete. O setor, que importou por mês entre US$ 120 milhões e US$ 150 milhões de janeiro a maio, trouxe de fora o equivalente a US$ 90 milhões em junho e em julho. Os analistas lembram que essa derrubada na entrada de itens estrangeiros no país não ocorreu do dia para a noite. Assim que o governo anunciou o plano para redução do consumo de energia, as empresas iniciaram programas mais modestos de importação, já prevendo o enfraquecimento da economia brasileira.

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