Curitiba - O setor financeiro que inclui os bancos, as seguradoras e as corretoras de valores, foi o primeiro a sair da crise financeira que completa um ano. Um fator determinante para o período crítico começar a dar uma trégua foi os Bancos Centrais em todo o mundo começarem a injetar recursos na economia. No entanto, isso pode ter outro viés. O excesso de moeda pode provocar um processo inflacionário. Ainda foi decisivo na recuperação a presença forte dos bancos públicos na ampliação do crédito. O setor de serviços também já iniciou a recuperação e obtém resultados melhores que os de 2008. O segmento que ainda amarga perdas é a indústria.
O assunto fez parte de um debate promovido ontem pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon-PR) que contou com a presença de quatro economistas. O supervisor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Cid Cordeiro, considera que a maior participação do Estado, a regulação mais significativa do sistema financeiro e o aumento das preocupações com questões ambientais também foram significativos no último ano para a economia brasileira.
Segundo ele, no Paraná, os efeitos da crise foram percebidos nos ativos financeiros, na restrição e aumento do custo do crédito e, a partir de outubro de 2008, na produção industrial, no consumo e no emprego. No entanto, o ápice veio em dezembro com uma série de demissões. Ao Paraná, a crise teve um custo de 80 mil empregos. A indústria foi a mais afetada, especialmente, a automotiva, metalmecânica, eletroeletrônica, de madeira e mobiliário, papel e papelão, setores que dependem mais de financiamentos e produzem bens de valores maiores. O economista e diretor do curso de Ciências Econômicas da PUCPR, Carlos Magno Bittencourt, prevê que a indústria têxtil e de calçados também ainda tenha dificuldade para sair da crise.
Cordeiro acredita que a maior demora para recuperação na área industrial também aconteça no segmento de bens de capital. Ele destacou que a decisão pelos investimentos na indústria é a última a reagir. A primeira etapa é a ocupação da capacidade industrial ociosa.
No entanto, Cordeiro destacou que o Brasil tomou medidas rápidas para o enfrentamento da crise como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros, eletroeletrônicos e material de construção. Além disso, ocorreram alterações na política monetária como a queda nos juros em patamar abaixo de dois dígitos, a redução do Imposto de Renda, a ampliação dos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a criação do Programa Minha Casa, Minha Vida de financiamento imobiliário.
Ele acredita que o Estado do Paraná não tenha dificuldades nas contas. Cordeiro estima um superavit fiscal de R$ 1,4 bilhões, apenas R$ 100 milhões menor que em 2008 e uma receita de R$ 15,6 bilhões, cerca de R$ 300 milhões mais baixa que no ano passado.
Recuperação
O coordenador do Curso de Economia da Universidade Positivo, Jackson Bittencourt, lembrou que as previsões do FMI apontam que 2010 será um ano de recuperação, mas que o crescimento com resultados mais expressivos deve ocorrer só em 2011. ''Em 2010 a crise ainda estará presente'', disse. Segundo ele, no Brasil, a crise teve formato de ''V'' porque a economia vinha em crescimento, caiu e agora inicia a recuperação. No entanto, o coordenador do curso de Economia da Fesp, Nivaldo Camilo afirmou que a ''solução da crise pode representar um novo tentáculo para crises futuras''. Para Cordeiro, o Pré-Sal pode ser a resolução para o gargalo energético e para a balança de pagamentos do País. Para ele, a crise apenas interrompeu momentaneamente o ciclo de crescimento do Brasil.
Carlos Magno lembrou que o Brasil foi um dos primeiros a entrar na crise e o primeiro a sair em função da desoneração dos tributos, do subsídio ao consumo e da injeção maciça de recursos na economia e nos bancos.

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