E agora, o que fazer?
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de novembro de 1997
Francisco Antônio Feijó 
Milhares de clientes, outros milhares de empregados, milhões de débitos, quase uma centena de pedidos de falência, esse o triste quadro que se lê e ouve hoje, nos quatro cantos do Brasil.
Quem são os culpados?
Uma dezena, quem sabe um pouco mais de privilegiados, que vinham esbanjando fama de riqueza por aí afora, e agora se sabe, nunca pagaram imposto de renda e quiçá tenham até apresentado suas declarações anuais.
E agora o que fazer?
No que se refere ao primeiro caso, os responsáveis pela empresa confessam publicamente que venderam seus patrimônios pessoais, para fugir à responsabilidade.
E os clientes, aqueles que mensalmente, a duras penas pagavam suas parcelas, pensando em ter um imóvel deixando de pagar aluguel, como ficam?
No caso dos segundos, os jogadores, empresários, clubes, a desfaçatez é tão grande que chega-se até a acreditar fosse burrice.
Para os primeiros, não existe solução milagrosa. Ou todos perdem um pouco mais e procuram levantar o que está no chão, ou todos irão perder tudo.
Dos segundos, com certeza ainda se poderá arrancar o que devem.
O que aborrece em tudo isto é que, tanto no primeiro como no segundo caso, a arrogância dos envolvidos deixa-nos, pobres mortais, com a cara no chão, certos até de ser honesto é um erro.
Como se pode admitir que durante anos e anos, quando todos procuravam gerenciar seus ganhos, lamentando a perda de empregos, estivessem alguns, vivendo nababescamente, viajando pelo mundo, gastando o que era nosso, já que o dinheiro dos clientes, não empregado em construções contratadas, ou dinheiro de impostos não pagos é nosso, é do Governo?
Será que pensavam os primeiros e os segundos, que ia ficar tudo em brancas nuvens, em uma nice e poderiam andar pelo mundo, gozando as delícias de hotéis de dez estrelas e clubes fechados, enquanto nós, trabalhadores normais, aqui ficávamos lutando no dia-a-dia, procurando dar a nossas famílias e ao País, uma situação melhor, como felizmente estamos dando, mantendo estável uma economia que vinha corroída por tantos e tantos iguais a esses?
E agora o que fazer?
Se for decretada a falência da empresa, em um dos muitos pedidos que tramitam pelo País, sem ativos para a garantia de passivos imensos e com a indisponibilidade dos poucos ou nenhum bem, que como ja afirmaram seus dirigentes, não mais possuem, as coisas redundarão em prejuízo total para os milhares de clientes e desemprego para outros tantos milhares de empregados.
Se não for decretada a falência e tentada uma composição, uma intervenção, quem injetará o dinheiro necessário, para terminar alguns imóveis, para dar andamento a outros e para tirar do chão, alicerces que já estão enferrujando pelo tempo que as obras estão paradas?
Será que o dinheiro sairá do Governo o que, por consequência, representa dizer de nossos bolsos?
Quem é o encarregado de fiscalizar o que vinha ocorrendo com essa empresa e com tantas outras em iguais ou piores situações por aí?
E os outros, aqueles que ganharam milhões de dólares, que gastaram inutilmente grande parte desse dinheiro, que são tidos como os responsáveis pela alegria do povo, quando nos levam a amargar derrotas memoráveis, o que farão pagar as suas dívidas que ao que se afirma têm o fisco?
Será que não sabiam que devem pagar mensalmente imposto sobre seus ganhos?
Será que não sabiam que sinais exteriores de riqueza são indícios sonegatórios que devem ser investigados, como agora o estão sendo e não o foram antes, não se sabe por que?
Onde está esse dinheiro, esses milhões de dólares que empresas teriam pago, após firmarem contratos milionários.
Quem pagou, quem e quem reteve de quem o imposto sobre isto?
Será que pensavam que existiria uma categoria especial de contribuintes, que não pagaria o imposto, quando todos pagam, desde a autoridade maior ao mais humilde trabalhador, que são descontados na fonte pagadora, no momento em que recebem seus holleriths, dentro do regime de fonte?
Enfim, quando esses fatos acontecem, mostrando que as coisas estão mudando, que é preciso acabar com essas regalias, com essas mistificações e principalmente com o caradurismo de alguns que teimam em reconhecer publicamente que fizeram erros, que sabiam que estavam errados e tudo bem, é que perguntamos e agora o que fazer?
- FRANCISCO ANTÔNIO FEIJÓ é advogado e diretor da CNPL - Confederação Nacional das Profissões Liberais.


