Buenos Aires –‘‘Seja o que Deus quiser’’. Esta foi a expressão utilizada ontem pelo presidente Eduardo Duhalde quando lhe perguntaram o que aconteceria se o Senado não aprovasse hoje o projeto do Plano Bonex 2, ou ‘‘Novo Bonex’’, plano que implicaria na troca de todos os prazos fixos bancários por bônus em pesos e dólares, respectivamente com prazo de 5 e 10 anos. O impopular plano tem a intenção de deter os recursos na Justiça contra o ‘‘corralito’’, e assim, evitar um colapso na liquidez dos bancos. Os analistas afirmam que poucos dias depois de criados, estes títulos somente terão 25% de seu valor original.
O debate sobre o plano estava previsto para ocorrer ontem à noite no Senado. No entanto, no fim da tarde, o líder do bloco do Partido Justicialista (Peronista) na Câmara Alta, José Luis Gioja, declarou que ‘‘talvez’’ hoje o plano seria debatido, para posterior votação.
Ontem à tarde, no Parlamento, a indisposição com o plano do governo se espalhava por quase todos os partidos políticos. Nas ruas, a população protestava. Uma multidão enfurecida cercou o edifício do Congresso Nacional, com a intenção de impedir a votação. Como voz grave, Duhalde afirmou que se o projeto não for aprovado, isso implicará no colapso de todo o sistema financeiro, que não poderia sobreviver à falta de liquidez causada pelas retiradas em massa.
Visivelmente farto da crise que não termina e da resistência de diversos setores políticos à sua política econômica, Duhalde disparou: ‘‘se o Parlamento não estiver satisfeito, podem convocar outra Assembléia para escolher um novo presidente’’.
Com amargura na voz, Duhalde disse que ‘‘a Argentina não está assim por culpa dos farmacêuticos nem dos quitandeiros. Está assim por causa da classe política que possui’’. No ano passado, Duhalde havia afirmado que os políticos argentinos eram todos ‘‘uma m...’’.
A resistência ao impopular Plano Bonex 2 começou a se tornar pública ontem à tarde. Os primeiros sinais partiram do bloco de partidos provinciais. Logo depois, veio um duro golpe por parte da União Cívica Radical (UCR), que comunicou, através de seu líder no Senado, Carlos Mestre, que ‘‘não é possível tratar o projeto da forma como está redigido’’.
Segundo o deputado Mario Cafiero, do Argentinos por uma República de Iguais (ARI), o novo plano ‘‘não resolve o problema dos correntistas. O governo está tentando só resolver o problema dos bancos’’.
Para aprovar o Plano Bonex 2, o governo precisa de dois terços dos votos dos parlamentares, proporção que não poderia conseguir contando somente com seus parlamentares, que também estão divididos.
Do lado de fora do Congresso, mesmo sob a chuva, uma multidão gritava ‘‘assassinos, assassinos’’ aos parlamentares. A multidão crescia a cada hora e já rodeava o edifício, impedindo a entrada e a saída de qualquer pessoa.
O feriado bancário e cambial aumentou mais ainda a tensão popular, já que praticamente nenhum caixa eletrônico tinha dinheiro disponível. Houve panelaços na frente dos bancos, na city financeira portenha.

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