Buenos Aires – ‘‘A gravidade da crise não permite erros.’’ Com estas palavras, uma das poucas que pronunciou ontem ao meio-dia, logo após tomar posse como 52º presidente da República da Argentina, Eduardo Duhalde deixou claro que sua política econômica não poderá correr o risco de falhar.
‘‘O país está falido, existem 2 milhões de indigentes, a classe média desapareceu’’, havia lamentado na véspera, durante o discurso realizado após o juramento da Constituição Nacional. O presidente confirmou que anunciará na sexta-feira as medidas econômicas que pretende implementar para retirar o país da grave crise.
Duhalde, que há vários anos pregava uma saída do atual modelo econômico, ao qual ele atribuiu a decadência da classe média argentina e ao ‘‘desaparecimento’’ da indústria nacional, começará a desmontar a conversibilidade econômica, criada por seu arquiinimigo, o ex-presidente Carlos Menem (1991-99), e que há dez anos estabelece a paridade um a um entre o dólar e o peso.
Duhalde ordenou à sua equipe econômica a preparação da desvalorização da moeda nacional, o peso. Neste caso confluem posições de dois grupos dentro da equipe econômica. Um setor prega a desvalorização entre 30% e 50%, que ficaria fixa nesse patamar, estabelecendo uma nova paridade. Outro setor era a favor de uma flutuação total da moeda.
Desta forma, a fórmula de consenso será a de desvalorizar de forma controlada, e posteriormente, quando o mercado estiver mais tranquilo, o governo deixaria a moeda flutuar livremente. Com esta medida, seria evitado o risco de uma corrida inflacionária, uma velha conhecida dos argentinos.
Uma das alternativas estudadas com interesse pela equipe econômica era a de desvalorizar criando uma cesta de moedas, na qual, além do dólar, participariam o euro e o real. Enquanto isso, o governo também ‘‘desdolarizaria’’ as tarifas dos serviços públicos privatizados. No início dos anos 90, estas empresas foram favorecidas com uma lei que fixava as tarifas na moeda americana, além de implicar em um reajuste de preços baseado na inflação dos Estados Unidos.
Se não ocorrer uma desdolarização das tarifas, os argentinos, cujos salários seriam pagos em pesos desvalorizados, poderiam ser levados à uma inadimplência em massa. A desdolarização seria aplicada a qualquer tipo de dívida ou contratos em dólares. Esta é considerada uma condição ‘sine qua non’ para um abandono ordenado da conversibilidade econômica.

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