‘‘Eu digo aos argentinos que vamos viver momentos mais difíceis do que este.’’ A declaração, sobre a atual conjuntura argentinaá – o dólar em disparada, o desemprego atingido recordes históricos, a pobreza se alastrando e o PIB despencando – parece emitida por um crítico analista do governo ou um político da oposição.
No entanto, foi pronunciada pelo próprio presidente Eduardo Duhalde, em uma entrevista aos quatro principais jornais argentinos. Ali, adotando um discurso que recorda o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, quando no meio da Segunda Guerra Mundial prometeu à população ‘‘sangue, suor e lágrimas’’, Duhalde começou a preparar a população para o pior pesadelo dos argentinos, a hiperinflação.
Duhalde, que voltou de mãos vazias de Monterrey, México, onde reuniu-se sem sucesso com o diretor do FMI, Horst Köhler, prepara-se para enfrentar hoje uma das semanas mais difíceis de seu governo, que poderia estar com os dias contados, caso o dólar continue sua escalada. Na sexta-feira, a moeda norte-americana fechou a cotação em 3,10 pesos. Diversos analistas sustentam que nesta semana poderia chegar a 4 pesos.
O dólar passou a ser o tema das conversas cotidianas dos argentinos, mas Duhalde prefere esquivar o assunto. ‘‘Com o dólar eu não vou fazer coisa alguma. Intervirá o Banco Central quando o considere oportuno’’, sustenta. O presidente afirma que ‘‘acha’’ que nesta segunda-feira o BC intervirá.
O dólar é um fator que, segundo a maior parte dos analistas, é o que definirá se ele permanecerá ocupando ‘‘el sillón de Rivadavia’’, como é conhecida a cadeira presidencial. Mas Duhalde sente-se seguro e diz que a possibilidade de que a disparada do dólar derrube o governo ‘‘é uma estupidez’’.
Mesmo que o dólar chegue a 9 pesos, o presidente provisório dos argentinos sustenta que seu governo ‘‘terᒒ que continuar. Pela primeira vez, admitiu que ‘‘será muito difícil’’ que a moeda americana tenha a cotação que ele sonhava, de 1,70 peso. Mas o presidente relativizou o impacto da moeda americana na Argentina. ‘‘A alta do dólar não é tão grave’’, comentou.
Sem papas na língua, Duhalde tocou no assunto que coloca os cabelos em pé de grande parte dos argentinos, a hiperinflação. No passado, o país passou por três épocas de hiperinflação, entre 1989 e 1991 (a pior foi em 1989, quando chegou a 4.923,l6% anual). Mas Duhalde não parece preocupar-se: ‘‘Se acontecer, e daí? Vamos ter que aguentá-la. Todos os países que passaram por situações tão difíceis tiveram que suportá-las.’’

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