O dólar comercial chegou a encostar em R$ 2,19 na manhã de ontem, mas fechou o dia em R$ 2,17 depois que o Banco Central (BC) fez dois leilões da moeda no mercado futuro, o que ajudou a conter a alta e a reduzir o impacto na inflação. As causas da flutuação vão desde o aceno do Federal Reserve (Fed, equivalente ao BC dos Estados Unidos) de que diminuiria estímulos à economia norte-americana, o que reduz a oferta de dólares, à crença no mercado de que a situação no Brasil entrou em desaquecimento.
Como boa parte dos produtos consumidos internamente são importados ou contam com insumos para produção que vêm do exterior, a valorização do dólar levaria ao encarecimento de preços. No entanto, mesmo com as intervenções que totalizaram US$ 2,994 bilhões em leilões da moeda, o presidente do BC, Alexandre Tombini, classificou ontem como neutra a política cambial para estabilizar a inflação ou para incentivar as exportações. "De nada vale o câmbio desvalorizado se a inflação estiver comendo por dentro a competitividade que o câmbio nominal dá ao exportador. E uma forma de fazer isso é ter uma política monetária adequada para esse momento", afirmou, em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado.
Tombini citou um movimento de reposicionamento do mercado cambial, período que tende a ser longo. O presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, explica que o País vive um processo de saída dos investidores, em parte pela queda nas expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). "Assim como quando houve euforia, quando fica em descrédito o mercado financeiro sofre o efeito manada, para entrada ou saída de moeda."
O segundo ponto é que o Fed acenou com menor estímulo para o crescimento diante de sinais de recuperação nos EUA, o que resulta em menor circulação de moeda. O professor de economia Azenil Staviski, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), afirma que a menor oferta deve valorizar o dólar e atrair mais investimentos ao país norte-americano. "Um dos reflexos deve ser uma pequena alta de juros nos Estados Unidos, o que serve como garantia para esses investimentos."
Antunes lembra ainda que, em momentos de turbulência, investidores costumam fazer testes para descobrir o limite do BC em relação ao teto para o câmbio. "Quando definem o preço, passam a ter um novo indicador de até quanto o governo vai trabalhar e isso serve para balizar negócios futuros", diz. Segundo o Boletim Focus, divulgado anteontem pelo BC, a entidade trabalha com uma previsão de curto prazo de R$ 2,10 para o dólar.

Consequências
Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a expectativa é de que o dólar se valorize para aumentar a competitividade do produto nacional no exterior. Com a moeda norte-americana em alta, o País também poderia exportar mais e reduzir o deficit na conta corrente nacional. Antunes afirma que a entrada de moeda estrangeira no Brasil já foi superior aos gastos com importações, por exemplo, mas que a partida dos investimentos externos devem reverter o quadro. "A aposta é de que, com o dólar baixo, não seria mantido o deficit. O governo trabalhava com R$ 2,10, que não seria tão ruim para a exportação nem para a inflação."
Staviski completa que o País não tem reservas altas de dólares. "A maioria é capital especulativo, que pode sair a qualquer momento. Só um terço ficaria, porque são investimentos diretos", conta. Porém, ele acredita que o BC deve estabelecer um processo de calmaria com o combate à inflação nos próximos meses, bem como com a tendência de recuperação nos EUA. (Com agências)

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