São Paulo - Após rondar a estabilidade, o dólar firmou-se no campo negativo na reta final do pregão de sexta-feira (12), acompanhando a aceleração das perdas da moeda americana no exterior. A divisa chegou a ficar abaixo dos R$ 3,20, mas acabou fechando nesse patamar, o mais baixo em quase três meses, apesar da decisão da S&P Global Ratings de rebaixar o rating soberano do Brasil. Na avaliação de profissionais do mercado, além de esse rebaixamento já ser esperado, o corte da nota pode servir de pressão para que o Congresso Nacional aprove a reforma da Previdência ainda neste ano.

O dólar à vista fechou em baixa de 0,27%, a R$ 3,2068, no menor valor desde 20 de outubro de 2017 (R$ 3,1898). O giro foi de US$ 1,283 bilhão. Na mínima, chegou a R$ 3,1998 (-0,49%) e na máxima, R$ 3,2295 (+0,43%). Na semana, acumulou perda de 0,83%.

No exterior, o dólar, que já vinha fraco, ampliou as perdas e o petróleo passou a subir mais com a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao acordo nuclear com o Irã. Apesar de se manter no tratado nuclear das potências mundiais com a república islâmica, a administração Trump impôs sanções contra autoridades e empresas ligadas a "violações de direitos humanos" no país, e também informou que vai trabalhar com autoridades europeias para modificar termos do acordo.

Quanto à decisão da S&P de rebaixar o rating brasileiro, a leitura é de que isso não afeta o interesse dos investidores pelo País. "O mercado está vendo melhora dos dados econômicos do País, as commodities passam por um bom momento, então vai atrás daquilo que é palpável", avaliou Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora.

Para José Raymundo Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, além de o rebaixamento já ter sido precificado pelos investidores, outra interpretação é de que a medida pode servir de pressão para que o Congresso aprove a reforma da Previdência neste ano. "Além disso, há as captações externas de empresas, e o humor externo é favorável ao real", acrescentou.

BOVESPA

O Ibovespa reagiu com um movimento contido de perdas ao rebaixamento da nota de crédito do Brasil. Além dos bons ventos externos, que parecem se perpetuar neste mês de janeiro, pesou favoravelmente nesta sexta-feira, 12, a força das ações de Petrobras e Vale, empresas que escaparam da má avaliação da S&P Global Ratings.

Prova de que o reflexo foi ameno, conforme já projetavam analistas ouvidos na quinta à noite pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado, o índice à vista fechou praticamente estável em queda de 0,02%, mantendo o suporte dos 79 mil pontos, aos 79.349,11 pontos. E ainda encerrou a semana com ganhos de 0,35%.

O giro financeiro, de R$ 9,2 bilhões, foi alto para a média de meses de janeiro.

"Hoje se a bolsa caísse 1,5% justificaria fácil porque, apesar de ter suportado muito bem durante boa parte do dia, a notícia sobre o rebaixamento não é nada favorável", disse Marco Tulli Siqueira, gestor de renda variável da Coinvalores.

Durante o pregão, os papéis de Vale e Petrobras sustentaram alta, impedindo que o índice à vista aprofundasse as perdas. Segundo Siqueira, dois motivos contribuíram para esse suporte: o fluxo de recursos de investidores não-residentes, que já ingressaram com R$ 2,7 bilhões na B3 no acumulado de dez pregões, e o fato de a S&P não ter rebaixado as notas das duas companhias na esteira do downgrade soberano.

No setor financeiro ocorreu justamente o contrário. As ações dos bancos foram penalizadas de maneira generalizada uma vez que seus ratings foram reclassificados para baixo. Mas, ao final do pregão, apresentaram sinais mistos, com Banco do Brasil em alta de 0,23%, ItauUnibanco cedendo 0,09%%, Bradesco estável e as 'units' do Santander recuando 0,49%.

Para Roberto Indech, analista-chefe da Rico Investimentos, muito embora o mercado sempre repercuta com volatilidade as incertezas que envolvem a situação do País, neste momento, economia e política estão praticamente desconectadas. "Hoje vivemos um cenário de incertezas no campo político, mas, no econômico, estamos com crescimento contratado, inflação baixa e juros em queda", disse. "Além disso, uma série de circunstâncias no ambiente global, que está bastante favorável, traz otimismo e tem impulsionado a bolsa aqui."

Segundo ele, as incertezas que rondam o mercado agora estão bastante relacionadas ao que ocorrerá ao processo eleitoral brasileiro após o julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dia 24 próximo.

TAXA DE JUROS

A exemplo das últimas sessões, os juros futuros de curto prazo fecharam em alta e os longos, entre a estabilidade e queda, nesta sexta-feira, 12, com o mercado financeiro relevando o rebaixamento da nota de crédito do Brasil na quinta-feira, 11, pela S&P Global Ratings. Segundo profissionais da área de renda fixa, a decisão já estava embutida nos preços e, com isso, a curva manteve o desenho recente, embalada ainda pela perspectiva do fim do ciclo de queda da Selic e pelo apetite ao risco do mercado externo, como sinalizado pelo recuo global do dólar.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2019 encerrou em 6,925%, ante 6,890% na quinta no ajuste e a do DI para janeiro de 2020 passou de 8,04% para 8,06%. A taxa do DI para janeiro de 2021 fechou em 8,89%, de 8,88% na quinta, e a do DI para janeiro de 2023 caiu de 9,69% para 9,64%.

A decisão da S&P teve um efeito pontual na abertura da sessão, pressionando para cima sobretudo as taxas longas. A classificação de risco passou de BB para BB-, com perspectiva estável. A nota está três degraus abaixo do patamar considerado grau de investimento. "Nossa avaliação reflete um progresso mais lento do que o esperado e um apoio menor da classe política do Brasil para implementar uma legislação significativa para corrigir a estrutura dos gastos em tempo hábil antes das eleições", comentou a agência.

Ainda pela manhã, o avanço dos DIs longos perdeu força e as taxas passaram a cair à tarde, na medida em que o dólar também virou para o terreno negativo. O mercado ainda mantém o discurso de que a perspectiva de fluxo de recursos para economias emergentes é positiva, num momento em que a curva longa vinha acumulando prêmios. "O rebaixamento não está tendo impacto pela dinâmica positiva dos ativos globais, o que tem resultado num mercado mais tranquilo. Temos ainda a questão do julgamento do Lula no fim do mês, que é mais importante do que a do rating", disse o trader da Quantitas Asset Matheus Gallina.

Em entrevista coletiva para comentar a decisão da S&P, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ressaltou justamente a estabilidade no mercado após o rebaixamento da nota de crédito. Meirelles disse que indicadores como dólar e juros de curto prazo e a bolsa tiveram pequenas quedas ou se mantiveram estáveis. "Isso significa que o que a agência disse já estava nos preços e os agentes econômicos já tinham levado tudo isso em conta nos últimos meses. Não há nenhuma surpresa no assunto", afirmou. Meirelles disse ainda que "no devido tempo haverá revisão para cima desse rating" e os de outras agências no futuro.

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