O cenário externo dominou as atenções do mercado cambial ontem, causando a alta do dólar. O comercial subiu 0,64%, para R$ 2,060 – maior cotação desde 04/03/1999. O escorregão das bolsas nos Estados Unidos e a preocupante situação econômica da Argentina voltaram a motivar compras de dólar para hedge. Ontem, o Banco Central novamente consultou as mesas de câmbio para saber a razão da alta dos preços. O interesse pelo problema política doméstico esfriou ontem, segundo analistas, porque o noticiário de fim de semana não trouxe fato novo bombástico envolvendo pessoas ligadas ao governo. Além disso, as notícias externas pioraram.
Nos Estados Unidos, a Nasdaq fechou em baixa de 6,3% e o Dow Jones recuou 4,10%. As bolsas norte-americanas derreteram especialmente por causa da Cisco e da Ericsson. Na sexta-feira, após o fechamento dos mercados, a Cisco anunciou que deverá cortar até 17% de sua força de trabalho e, ontem pela manhã, a UBS Warburg, o ABN AMRO e o Credit Suisse First Boston reduziram suas previsões para o desempenho da companhia.
Os analistas afirmaram que a situação dessas empresas, além da Intel e de outras gigantes dos EUA, aumentou a apreensão em relação à desaceleração da economia dos EUA e suas consequências para os países emergentes. Em relação à Argentina, há dúvidas sobre a capacidade política do novo ministro da Economia Ricardo López Murphy de negociar a aprovação no Congresso do pacote de ajuste fiscal .
A Nasdaq voltou a roubar a cena do mercado financeiro mundial nesta segunda-feira. A bolsa eletrônica americana fechou em baixa de 6,30%, para 1.923,38 pontos, aproximando-se do nível de 1.200 pontos, quando o presidente do Fed, Alan Greenspan, alertou os investidores para a ‘‘exuberância irracional’’ das bolsas, em dezembro de 1996. O índice Dow Jones caiu 4,10%, para 10.208,2 pontos. A reboque de Wall Street, a Bovespa recuou 3,69%, para 15.527 pontos, com volume financeiro de R$ 521 milhões. Segundo operadores, a julgar pela velocidade de queda da Nasdaq, é possível que o mercado brasileiro tenha um maior grau de aderência à bolsa novaiorquina no curto prazo. A Bolsa de Buenos Aires fechou em baixa de 2,36%.
A queda violenta das bolsas norte-americanas contaminou também o mercado brasileiro de juros, que havia ensaiado uma recuperação na sexta-feira passada. O contrato de DI futuro mais negociado na BM&F, o de outubro, chegou a superar o nível de taxa que projetava na quinta-feira passada (15,85% ao ano), quando a Argentina tinha voltado ao olho do furacão. Ontem, esse contrato projetou juros de 15,96%.
O sentimento de que ainda há muito espaço ladeira abaixo para o Nasdaq e até para o Dow Jones está prevalecendo nas mesas de operação. Na maioria das vezes, em terreno brasileiro, é o dólar que reage imediatamente, transmitindo a péssima expectativa para os juros. ‘‘O dólar é que comanda’’, assegura um profissional.
(Márcia Pinheiro, Marisa Castellani e Silvana Rocha)

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