O comportamento do dólar em 2001 surpreende boa parte do mercado: enquanto a bolsa sobe com força e as projeções de juros despencam, a moeda americana acumula alta de 1,9% no ano, aproximando-se do nível de R$ 2,00 - na última sexta-feira, fechou em R$ 1,988.
Segundo analistas, a principal fonte de pressão sobre o câmbio foi a notícia de que o Tesouro pretende comprar até US$ 3 bilhões no mercado ao longo do ano, para honrar parte dos compromissos externos do País. Isso acabou definindo um piso informal para as cotações, que os investidores situam entre R$ 1,93 e R$ 1,95.
Além disso, o pífio desempenho da balança comercial, que registrou um déficit de US$ 479 milhões em janeiro, contribuiu para a alta do dólar. E o mercado também ficou frustrado com o adiamento do leilão da banda C da telefonia celular, pois os analistas esperavam que a venda das licenças pudesse trazer cerca de U$ 1,2 bilhão para o País.
Para complicar ainda mais esse quadro, as incertezas em relação ao ritmo de desaceleração da economia americana e a crise na base de sustentação política do governo aumentaram a demanda por dólares nos últimos dias.
Mas a principal razão para a alta do dólar parece mesmo a decisão do Tesouro de comprar até US$ 3 bilhões no mercado. Nathan Blanche, sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, diz que, ao anunciar explicitamente esse objetivo, o governo acabou criando ‘‘um piso virtual’’ para o dólar. Afinal, lembra ele, US$ 3 bilhões correspondem a 5% da demanda anual pela moeda americana.
O diretor-vice-presidente do Banque Nationale de Paris (BNP) Paribas, Carlos Calabresi, também diz que o anúncio do Tesouro criou um piso informal. ‘‘A idéia do mercado é que, se o dólar cair, o Tesouro vai entrar comprando’’, explica ele. Em resumo, a expectativa de boa parte do mercado é que, daqui para a frente o dólar ou fica estável ou sobe.
Na semana passada, circularam rumores de que o governo teria comprado US$ 400 milhões em janeiro. Em entrevista à Agência Estado, o secretário-adjunto do Tesouro, Rubens Sardenberg, negou que a instituição tenha adquirido esse volume. Ele não informou a quantia exata, mas disse que as compras ficaram entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões por dia, o que indica um total entre US$ 220 milhões e US$ 330 milhões.
Calabresi está preocupado com o efeito que um dólar próximo de R$ 2,00 pode ter sobre a inflação. Embora o governo alegue que o repasse da desvalorização para os preços é pouco relevante, Calabresi questiona se, num ambiente de crescimento mais acelerado, as pressões sobre os índices de inflação não são mais intensas. ‘‘No ano passado, a cotação média do dólar ficou em R$ 1,83, e agora o preço está próximo de R$ 2,00. Será que o repasse para os preços não vai ser bem maior com a economia crescendo a 4,5% ao ano?’’
Comportado O analista econômico da consultoria MCM, Antonio Madeira, considera essa hipótese pouco provável. Para ele, como o crescimento da economia não deve provocar um ganho expressivo na renda, a inflação deve ficar comportada. A MCM estima que o IPCA do IBGE vai ficar em 4,2% este ano, dentro da meta inflacionária de 2001. Segundo ele, o modelo do BC prevê que, no período de um ano, o repasse da desvalorização para os preços é de 15% - ou seja, se há uma depreciação de 10%, o impacto sobre a inflação é de 1,5 ponto porcentual.
Mas a pressão sobre o câmbio não se limita à atuação do Tesouro. Blanche destaca o forte aquecimento da economia, o que aumenta as importações. O desempenho da balança comercial em janeiro evidencia isso. As exportações cresceram 31,4% em relação a janeiro de 2000, mas o salto das importações foi de 40,6%. Segundo um estudo da Tendências, cada ponto porcentual de crescimento provoca um aumento de 1,14 ponto nas exportações e de 1,4 ponto nas importações.

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