Forte especulação dominou o mercado cambial ontem à tarde e empurrou o dólar para novo recorde do Plano Real. A moeda norte-americana também rompeu nova resistência técnica de preço, ao fechar vendida a R$ 2,405, em alta de 1,09%. No fechamento do mercado futuro da BM&F, o contrato de dólar com vencimento em 1º de julho projetou alta de 0,71%, a R$ 2,4160. Segundo o Banco Central, a Ptax (média da cotação no dia) fechou em R$ 2,3906, na venda, em alta de 0,78%.
A fraca liquidez no mercado à vista, o fluxo negativo e a ausência de vendedores deram espaço para um movimento especulativo no meio da tarde visando chamar a atenção do Banco Central para a venda de moeda, o que não deu certo. A autoridade monetária só interveio ontem dentro do programado: em dois leilões de venda de papéis cambiais para a rolagem integral de um vencimento que ocorre amanhã.
Alguns operadores de mesas de câmbio também atribuíram a disparada do dólar à reação negativa do mercado à informação de que o volume de vencimentos no exterior do setor privado neste mês é de US$ 4,5 bilhões, bem acima do esperado, de até US$ 2,5 bilhões.
A decisão do PT de obstruir a pauta do Congresso Nacional, inclusive a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2002, como forma de pressionar o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) a se afastar da presidência do Legislativo, também causou alguma inquietação. Mas, no final, os especialistas avaliaram que a saída de cena de Jader Barbalho até poderia ser positiva para a imagem do Congresso e o governo, que não deseja ter um aliado político tão próximo supostamente envolvido em novas falcatruas.
Para alguns profissionais, o dólar também foi pressionado à tarde por zeragens de posições vendidas por tesourarias de bancos, que teriam vendido moeda a descoberto pela manhã, levando a cotação a atingir a mínima do dia, de R$ 2,387, alta de 0,34%.
Independentemente das razões que sustentaram o avanço da moeda ontem, o mercado aposta em novos saltos enquanto o fluxo de recursos para o País continuar negativo e a liquidez estreita. O mercado conta para os próximos dias com eventual ingresso no País entre US$ 500 milhões e US$ 600 milhões, relativos à oferta global da Embraer. O mercado especula que 90% da oferta deverá ficar com investidores estrangeiros.
Nos leilões de papel cambial realizados ontem, o Banco Central foi bem-sucedido. A forte demanda nesses leilões assegurou ao BC o pagamento de juros relativamente baixos. Na primeira oferta, o BC vendeu 1,1 milhão de NBC-E, com data de emissão em 15/6/2001 e com vencimento em 17/10/2002 (um ano e quatro meses), a taxas de 8,27% e 8,19%, mais variação cambial. Essas taxas ficaram pouco abaixo do consenso de mercado, entre 8,3% e 8,4%. No leilão realizado em 30 de maio, o BC pagou na venda de 800 mil de NBC-E com vencimento em 18/4/2002 (onze meses) taxas de 7,89% e 7,80%.
Segundo operadores, o resultado desse primeiro leilão de ontem refletiu a forte demanda, que foi por 3,978 milhões de títulos, e a expectativa dos investidores de novas altas da moeda. No segundo leilão, realizado entre 15h e 16h, o BC também vendeu o lote total de 900 mil NBC-E, emitidas em 1º/6/2001 e com vencimento em 18/4/2002, a taxas de 7,39% e 7,36%. Neste caso, a demanda foi por 3,344 milhões de papéis.
Depois de ter caído 1,77% na mínima do dia, o Índice Bovespa mostrou recuperação no período da tarde para encerrar o pregão em baixa de 0,33%. O comportamento do Ibovespa foi similar ao Nasdaq, que também se recuperou à tarde depois de forte queda. A melhora no desempenho do Ibovespa também foi atribuída à alta do dólar. ‘‘Com o dólar a R$ 2,40, tem muito papel ficando baratinho se for cotado em dólar’’, explicou um operador. Ele lembra que o mercado de ações já vem amargando perdas há meses e, com o real se desvalorizando, as ações também ficam mais baratas em dólar.
(Silvana Rocha, Marisa Castellani e Mario Rocha)

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