O dólar fechou ontem em R$ 2,504, o nível mais baixo desde 16 de agosto, refletindo o otimismo que domina o mercado nas últimas semanas. A informação de que a AmBev poderá captar até US$ 1 bilhão no exterior animou as tesourarias de bancos a atuar de forma decidida na ponta de venda, por causa da expectativa do ingresso de recursos no País, ainda que a data da operação não esteja definida. Com a queda de 1,18% apurada ontem, o dólar acumula desvalorização de 7,22% no mês.
O diretor de Tesouraria do banco Lloyds TSB, Pedro Thomazoni, ressalta que o otimismo não se restringe ao câmbio: ''Há uma forte demanda por ativos brasileiros, como mostra a alta dos títulos da dívida externa e da bolsa.'' O Índice Bovespa subiu 3,10%, enquanto o C-Bond, o papel brasileiro mais negociado, teve ganho de 0,58%, cotado a 75,563 centavos de dólar.
E qual é o motivo para tanto bom humor? ''O principal é a virada da balança comercial, que deve reduzir significativamente o déficit em contas correntes do País em 2002'', responde Thomazoni. Além disso, os investidores temiam que uma moratória da Argentina fechasse o acesso do Brasil ao mercado internacional de capitais. Mas o calote veio para o mercado, a renegociação da dívida é sinônimo de calote e o pior não ocorreu. Empresas brasileiras continuam captando recursos no exterior. O risco Brasil se descolou da Argentina e o dólar caiu.
O diretor-vice-presidente do BNP Paribas, Carlos Calabresi, lembra ainda que a demanda por proteção cambial (hedge) por parte das empresas diminuiu muito. Na verdade, as companhias estão deixando de renovar as operações que estão vencendo e, em alguns casos, até mesmo desmontando-as, o que leva as tesourarias a vender a moeda.
Calabresi entende que o dólar pode continuar em queda nos próximos dias. Ele diz que, do ponto de vista gráfico, o próximo suporte a ser testado é R$ 2,45. Thomazoni diz, no entanto, que o dólar não pode cair muito mais opinião compartilhada por boa parte do mercado. Uma baixa muito forte comprometeria as perspectivas de um saldo comercial de US$ 5 bilhões a US$ 10 bilhões em 2002, o que depende em grande parte de um câmbio depreciado.
Mas ainda há incertezas no cenário externo que podem levar o dólar a subir novamente. O economista-chefe da Crédit Lyonnais Securities Asia, Dalton Gardimam, diz, por exemplo, que uma desvalorização na Argentina tenderia a pressionar o câmbio. Ele entende ainda que, se houver sinais de que a recuperação americana não vai ocorrer no primeiro ou no segundo trimestre de 2002 ''idéia que o mercado comprou'' o otimismo atual pode diminuir.

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