O presidente Fernando Henrique Cardoso tentou ontem, durante cerimônia de inauguração da nova sede da Rede Globo, em São Paulo, tranquilizar a população a respeito dos boatos que dominam o mercado desde a tarde de quinta-feira, sobre a possibilidade de decretação de feriado bancário na segunda-feira e confisco de recursos depositados em conta corrente e aplicações. ‘‘Não haverá feriado bancário nenhum, não há nenhum plano sendo elaborado, eu não seria homem de fazer confiscos, fechar contas de repente, seria uma traição ao povo brasileiro, ao meu passado, aos milhões de votos que recebi’’, afirmou. ‘‘Eu mais uma vez peço aos brasileiros que não vão na onda de gente que quer atrapalhar o País, fiquem tranquilos que não vai haver feriado bancário’’.
Mais tarde, antes de encontro com o governador Mário Covas, no Palácio dos Bandeirantes, o presidente recebeu informações de Brasília, segundo as quais a população continuava inquieta, por isso resolveu voltar à carga, dessa vez ainda mais incisivo: ‘‘Nós hoje temos dificuldades na área do dólar, há especuladores. Estão subindo os preços porque hoje é o último dia do mês e é sexta-feira. Tudo especulação. Pois bem, que a população não caia nesta. Porque quando o dólar cair quem vai perder não é o especulador que vende primeiro é o pobre povo que comprou alto. É preciso ter calma e entender esses mecanismos e evitar que o Brasil, que levou tantos anos criando uma economia do real, que a população que pode viver melhor e com mais tranquilidade que agora por causa de umas pessoas chacais, digamos assim, que só querem saber de certos momentos explorar as economias da população.’’
Marie Hippenmeyer/France PresseEU NEGOFHC sobre o boato de confisco: ‘‘Seria uma traição’’Segundo o presidente ‘‘não tem nenhum sentido que se façam filas em bancos’’, porque ‘‘os que estão nas filas de bancos ou estiveram vão ter que voltar na segunda-feira para devolver o dinheiro. Não haverá nada disso’’. Para o presidente, ‘‘é impatriótico e criminoso ficar dizendo que vai haver isso ou aquilo’’. Ele pediu que emissoras de rádio e televisão alertassem a população. ‘‘Há pessoas que chegam às filas dos bancos e dizem que precisam tirar depressa porque vai haver feriado, que vai haver plano: é mentira; é preciso que o Brasil volte à sua normalidade e vamos deixar que essa questão do dólar fique aos cuidados do Banco Central.’’
O governo, afirmou, não pretende declarar moratória da dívida interna. A informação de que a União poderia deixar de honrar sua dívida parte de pessoas ‘‘desinformadas ou tão bem informadas que querem ganhar mais e fazem boato para ganhar no mercado’’. O governo está disposto a lutar para que a inflação não volte.
O presidente garantiu que não irá criar nenhum instrumento especial de controle dos preços. Fernando Henrique afirmou ser contra o tabelamento de preços pelo governo, medida que, na sua opinião, é ultrapassada. Segundo ele, esta tarefa cabe aos brasileiros. ‘‘Quando houver abuso, a população tem o recurso do Procon, tem os instrumentos legais.’’
Em relação ao dólar, o presidente voltou a frisar que não vai intervir no mercado de câmbio. ‘‘O dólar vai chegar aonde quiser e vai voltar; isso é especulação e nós não vamos ficar nervosos só por causa da especulação.’’, disse. ‘‘A moeda está flutuando, é um problema entre setores particulares, as reservas não são afetadas porque o Banco Central não está vendendo dólares’’, continuou. ‘‘Esses dólares que sobem, que baixam, que dizem que saem por aqui, por ali, não são do governo, são de particulares.’’
‘‘A crise existe, mas não podemos deixar que ela nos domine’’, afirmou o presidente, durante discurso de improviso para cerca de 300 convidados.

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