Dólar foge; crescem sinais de um 'Real 2'
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quinta-feira, 28 de janeiro de 1999
Agência Estado 
O Banco Central bem que está tentanto segurar os dólares no País. Já anunciou o aumento das posições vendidas em dólar, deu um passo para a unificação cambial, desmentiu boatos e ontem, desde que houve a primeira desvalorização forte do real, o BC elevou novamente as taxas de juros. Mas, mesmo com todo esse arsenal, o mercado tem visto pesados volumes de dólares deixando o País diariamente.
Ontem, por exemplo, por volta das 18 horas, o segmento de câmbio flutuante registrava saldo negativo de US$ 95 milhões. O segmento de dólar comercial mostrava déficit menor, de apenas US$ 32 milhões. Mas operadores comentavam que esse número seria substancialmente maior até o registro de todos os contratos às 21 horas.
Enquanto não há parâmetros definidos, a tendência continua a de fluxo cambial negativo, comentou um operador. E pelo comportamento instável e nervoso do mercado, essa tendência só deverá ser interrompida, no curto prazo, se houver alguma nova medida de maior impacto por parte da equipe econômica, disse o mesmo operador. Aliás, o mercado vem pressentindo, a cada dia, a urgência de uma ação mais contundente do governo brasileiro para dar parâmetros ao mercado.
Duas visitas que o ministro Malan recebeu ontem na Fazenda (de Marcílio Marques Moreira e de André Lara Rezende) foram sintomáticas de que alguma coisa está para acontecer, seja na mudança de nomes no Ministério seja na mudança de condução da economia, sejam as duas coisas juntas. No entendimento de um experiente analista, Marcílio deu algumas dicas ao dizer que o momento atual é de transição e que não se deve mudar o regime de flutuação cambial. Mas que algumas correções precisam ser feitas num segundo momento, como aconteceu no México. Rezende, por sua vez, chegou sem falar com a imprensa. Mas seu currículo, como todos sabem, está ligado à formulação de dois importantes planos econômicos da história recente do País: o Cruzado e o Real.
Enquanto o mercado acusa a falta de parâmetros, dá ouvidos a rumores sobre novos nomes para o Ministério, comenta possíveis mudanças na condução da economia e lê na imprensa internacional as notícias nada favoráveis em relação ao Brasil, as cotações do dólar continuam em alta. Ontem, por exemplo, o dólar comercial oscilou entre R$ 1,88 e R$ 1,95, encerrando o dia a R$ 1,91. Já o dólar futuro com vencimento em fevereiro, assim como anteontem, teve sua cotação final abaixo da cotação do comercial. Na BM&F, o vencimento fevereiro fechou ontem a R$ 1,86.
Os pregões fecharam esta quarta-feira com uma idéia consensual: o governo vai adotar medidas fortes, e não apenas pontuais, para reorganizar os mercados e a economia brasileira. Na retranca, como o movimento do dólar não foi tão agressivo, a Bovespa fechou em alta nominal de apenas 0,55% e a Bolsa carioca subiu 1,07%.
Sinais não faltaram de que há algo no horizonte. O presidente do Congresso, Antônio Carlos Magalhães, afirmou taxativamente que cedo ou tarde o governo tomará medidas contra os especuladores. Disse ainda esperar mais medidas de ajuste por parte do governo. O ex-ministro Marcílio Marques Moreira saiu de uma reunião com o ministro Pedro Malan cheio de idéias sobre o modelo mexicano. E, de Nova York, segundo informa a coluna Análise Política OnLine, espera-se a adoção de um ajuste fiscal forte.
Também foi enigmática a presença de André Lara Resende na sala de Malan na tarde de ontem. E mais intrigante: a repentina não-confirmação da viagem do ministro da Fazenda a Davos, quando tudo estava acertado para ele partir ontem à noite.
O mercado teme estes sinais. Apesar das sucessivas negativas oficiais, operadores tremem nas bases com a idéia de moratória, quer seja interna, quer externa. Mas traria alívio se o governo Fernando Henrique Cardoso viesse a público mostrar que o País não está à deriva e principalmente que o futuro não depende apenas da contabilidade dólar que entra versus dólar que sai.
O BC tentará, pela política monetária, fazer aquilo que a política cambial vinha fazendo desde o início, comentou um executivo. É coerente com que o que vem pregando e com os compromissos assumidos com o FMI.


