O mercado de câmbio brasileiro abriu ontem pressionado mais uma vez pela instabilidade na economia argentina. O dólar comercial subiu pelo sexto dia consecutivo, para terminar comercializado a R$ 1,914 – o maior valor desde novembro do ano passado. O dólar paralelo em São Paulo fechou a R$ 2,02 para compra e R$ 2,04 para venda.
O Banco Central reofertou ontem R$ 600 milhões em títulos corrigidos pela variação cambial, as NBC-Es (Notas do Banco Central, série Especial), que não havia conseguido vender na segunda-feira. O BC se dispôs a pagar juros de 11,68% mais variação cambial para quem estivesse interessado nos papéis oferecidos. Mas o negócio não foi atrativo para o mercado, e foram vendidos apenas R$ 112,5 milhões. ‘‘Como o leilão de NBC-Es é uma forma de o governo ajudar a equilibrar o mercado, o insucesso do negócio pressionou o câmbio’’, diz Miriam Tavares, da corretora AGK.
Logo depois do leilão, o dólar começou a disparar e fechou na máxima cotação do dia, com alta de 0,95%. O Ptax (preço médio do dólar, medido pelo BC em um determinado dia), também fechou em alta, de 0,33%. Até ontem, o dólar acumulava alta de 6,2% no ano. Um fator positivo do aumento do dólar é que traz maior competitividade para os exportadores do País. Quando há alta da moeda norte-americana, as mercadorias brasileiras ficam mais baratas no mercado externo.
Na opinião de Octavio de Barros, economista-chefe do BBV, são normais as oscilações no sistema de câmbio flutuante adotado pelo País. ‘‘O câmbio está funcionando como foi pensado. Ele tem de absorver fatores que preocupem a economia, como o petróleo e a Argentina hoje’’, diz o economista.
Barros lembra que no ano passado o dólar estava em um patamar maior do que ontem nesta época do ano, mas terminou cotado próximo a R$ 1,80. A procura pela moeda norte-americana fez os negócios com dólar futuro atingir um nível recorde na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) ontem. Foram negociados, nos três vencimentos (novembro e dezembro de 2000 e janeiro de 2001), 204,09 mil contratos, o maior volume do ano, com giro de R$ 19,4 bilhões.
Alguns especialistas dizem que isso mostra que se o cenário externo não der sinais positivos nos próximos dias, o valor do dólar tem de continuar em ascensão.
A disparada do dólar ontem deixou o mercado atento à possibilidade de o BC intervir nos negócios para derrubar os preços. Essa hipótese não é descartada, mas é considerada pouco provável pelos analistas, porque causaria maior especulação nos mercados. Um experiente operador de câmbio disse que não acredita na atuação do BC no dólar por dois motivos: os fundamentos macroeconômicos internos são positivos e o BC tem outros meios para controlar a cotação da moeda, como a colocação de títulos cambiais de prazo mais curto e o aumento do compulsório sobre depósitos à vista, que tiraria liquidez do mercado e poderia obrigar as instituições a vender dólares, aliviando a pressão sobre os preços.
O Ibovespa fechou em baixa ontem, afetada por uma combinação de fatores negativos. Analistas creditaram o desempenho ruim da bolsa paulista a: a) incertezas em relação à Argentina, b) volatilidade do mercado nova-iorquino, c) taxa maior sancionada pela LTN de 406 dias, em leilão do Tesouro, d) rejeição das instituições financeiras por NBC-E mais longa, em leilão do Banco Central; e) inesperada liminar que suspendeu a compra do Banestado pelo Itaú. A Bovespa fechou em baixa de 1,36%, com giro financeiro de R$ 615 milhões.