São Paulo - O dólar comercial foi cotado ontem a R$ 1,983 para venda nos últimos negócios do mercado financeiro, em queda de 1,29% sobre o fechamento anterior. É a primeira vez em seis anos que a taxa cambial supera o ''patamar psicológico'' dos R$ 2, em um efeito dos fundamentos econômicos vistos como mais sólidos por economistas e investidores. A cotação máxima da moeda chegou a R$ 2,008 e a mínima, a R$ 1,979 durante o dia.
O Banco Central limitou sua intervenção no mercado de câmbio a uma leilão de compra de moeda, anunciada às 15h30, adquirindo dólares à taxa de R$ 1,984. Profissionais de mercado estranharam a forma de atuação do Banco Central.
''Todo mundo sabia que, se o CPI (inflação americana) viesse ''bom' ou em linha, o dólar iria vir para abaixo de R$ 2. Então, o BC teria que entrar logo pela manhã, e não esperar até quase o final (dos negócios) para fazer o leilão. Ou então, mudar a forma de atuação'', afirmou Ideaki Iha, profissional da corretora Fair. ''Ou ele 'jogou a toalha', o que é improvável, ou é um sinal de que o BC considera R$ 2 o novo patamar do câmbio. Só nos próximos dias nós podemos saber ao certo'', acrescentou.
A taxa de câmbio começou a cair logo pela manhã, após a divulgação do CPI (índice de preço ao consumidor), aliviando as preocupações sobre as pressões inflacionárias da economia americana. A inflação em queda abre espaço para a autoridade monetária local (o Federal Reserve) possa acelerar a redução dos juros locais, o que favorece as Bolsas mundiais.
Corretores já esperavam que a taxa cambial caísse abaixo de R$ 2 há meses. Somente as intervenções pontuais do BC, o único comprador de moeda na praça, sustentavam a cotação. A autoridade monetária, no entanto, ''lutava'' contra a corrente.
''O que está fazendo o dólar cair também são as chamadas arbitragens no mercado internacional'', explicou Edgar Pereira, economista-chefe do Iedi (Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial). O investidor internacional toma recursos em dólar em países com juros mais baixos, vende essa moeda e ''compra'' real, aplicando os recursos no país, rendendo juros muito mais altos do que no restante das economias mundiais.
''O país está numa condição muito melhor do que anos atrás. Antes, esses dólares eram necessários porque o nível das reservas era muito baixo, e o país era visto como de alto risco. Agora, as nossas reservas estão muitos maiores e o risco de calote é muito mais baixo'', avaliou Ideaki Iha, da Fair.
''Esse valor da taxa de câmbio é ruim até para importadores, que já tomou recursos considerando um dólar mais alto. A economia se torna imprevisível e, em economia, previsibilidade é tudo'', afirmou.

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