A tendência à alta do valor do dólar em relação ao real tende a beneficiar o setor de agronegócios no Paraná nos próximos meses, mas as mudanças devem ser a conta-gotas para evitar a inflação, dizem especialistas ouvidos pela FOLHA. A moeda norte-americana chegou a R$ 2,11 às 11h30 de ontem, mas fechou o dia em R$ 2,08, depois que o Banco Central (BC) interviu com leilão de swap cambial, ou troca de moeda para conter a depreciação do dinheiro brasileiro.
Com o Brasil em melhor momento do que países desenvolvidos frente à crise econômica mundial, o fim do ano marca uma saída significativa de lucros e dividendos empresariais para o exterior, o que pressiona pela alta do dólar. O BC informou anteontem que o montante chegou a US$ 2,355 bilhões no mês passado, bem acima do US$ 1,558 bilhão do ano passado. ''Como o Brasil recebeu bastante investimento direto (para produção) e como existe uma crise mundial que faz cair a liquidez de governos e empresas do exterior, há uma retirada de capital de países onde existe uma certa folga. É normal'', explica o professor de economia Azenil Staviski, da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Staviski diz que o saldo entre dinheiro investido no País e enviado para fora foi de US$ 66 bilhões em 2011. Entre janeiro e setembro deste ano, já estava em US$ 47,5 bilhões. ''É um dinheiro que cria capacidade de produção, que não sai, então não há risco com a saída de rentabilidade.''
Uma depreciação maior do real frente dólar seria benéfica para a indústria de exportação, segundo o professor. Porém, o Brasil ainda depende bastante de produtos importados para consumo, o que poderia fazer com que a inflação disparasse em caso de dólar valorizado. ''O governo aumentou o crédito para consumo e a indústria nacional não produz tudo o que é necessário para o País'', afirma o economista Roberto Zurcher, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).
Zurcher considera que há espaço para que o câmbio seja mais favorável à indústria, mas diz que não é possível fazer uma mudança drástica porque geraria instabilidade nos contratos de importação e exportação. ''São acordos com duração de mais de seis meses, até dois anos (com um valor para o dólar definido), então é preciso que a variação seja lenta.''
Baseado em números do BC, Staviski conta que a taxa efetiva de câmbio do real frente o dólar está em 52% do que poderia. Isso significa que a moeda norte-americana poderia bater em R$ 3. ''Mas é preciso cuidado. Isso não vai ocorrer porque geraria inúmeros problemas. Só mostra que há espaço para depreciação do real.''
Para o Paraná, o economista da Fiep diz que a vantagem com a alta do dólar será para os empresários do setor agrícola, que poderão se recuperar frente perdas na produção deste ano causadas pelo clima. Dos dez principais produtos na pauta de exportação do Estado até setembro de 2012, oito pertencem ao agronegócio, um ao setor petrolífero e um ao automotivo.
Tecnologia
O professor da UEL lembra que o valor mais baixo do dólar é vantagem para quem precisa comprar tecnologia ou insumos para produzir. No caso da balança comercial de serviços, por exemplo, que envolve desde negociações de turismo a manutenção de equipamentos e consultoria, o saldo brasileiro é muito negativo. ''O período de vacas gordas está passando e a indústria brasileira deveria ter aproveitado para investir em tecnologia quando o dólar estava baixo'', conta Staviski.
Zurcher vê a indústria hoje mais em busca de competitividade no mercado internacional do que de tecnologia. ''Temos custos de produção superiores aos dos concorrentes de fora'', afirma, ao citar que são necessárias outras medidas para tornar o produto brasileiro atrativo.

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