Brasília - A queda do dólar e o desaquecimento da economia em razão da alta dos juros reduziram em 1,12% as vendas da indústria em março, na comparação com fevereiro. A conclusão é da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que divulgou ontem os indicadores do primeiro trimestre. O resultado já desconta os efeitos sazonais e, segundo o economista Flávio Castelo Branco, da CNI, confirma uma desaceleração da atividade industrial no primeiro trimestre, em comparação com o último trimestre de 2004.
  Castelo Branco argumenta que, embora as exportações estejam batendo recorde atrás de recorde, a receita em reais obtida por alguns setores está caindo por causa da baixa cotação do dólar. Nas grandes empresas, 20% da receita, em média, provêm de exportações. O problema estaria sendo enfrentado com mais força pelos fabricantes de bens de consumo de massa, principalmente calçados e produtos têxteis. Como a China não importa esse tipo de produto, ao contrário de commodities agrícolas e minerais, esses mercados não têm preços externos que compensem as perdas na conversão dos dólares em reais.
  Essa perda de rentabilidade pode dificultar o aumento dos investimentos, diz o economista. Segundo ele, projetos que tinham rentabilidade garantida com o dólar próximo a R$ 2,90 deixaram de ser lucrativos com a cotação da moeda americana próxima a R$ 2,50. Desta forma, muitos investidores estariam optando por engavetar os planos de expansão ou de modernização.
  O economista Paulo Mol, também da CNI, explica que esse efeito é danoso à indústria, pois o uso da capacidade instalada está muito alto - 82,6% desde janeiro. Ele chegou a 83,4% em dezembro, mas recuou um pouco diante da maturação de investimentos realizados nos dois últimos anos e em decorrência do desaquecimento da economia. Mesmo assim, é um nível elevado para uma eventual recuperação da atividade, alerta Mol.
  A redução da atividade não afetou ainda o otimismo dos empresários em relação a 2005, pois o nível de emprego continua subindo, embora em ritmo menor. ‘‘Se a empresa continua a contratar, isso significa que a perspectiva dos empresários continua otimista’’, comenta Mol. A desaceleração, porém, pode ser um alerta de retração no emprego mais à frente.
  A mesma preocupação ocorre com os dados das horas trabalhadas na produção, que é considerado pela CNI o indicador mais vinculado à produção industrial. No terceiro trimestre de 2004, registrou-se crescimento de 3% sobre o trimestre anterior. No último trimestre do ano passado, o crescimento havia sido de 1,8%. Já de janeiro a março deste ano, as horas trabalhadas ficaram apenas 1,4% acima do dado referente ao fim de 2004.
  A massa salarial tem crescido há sete trimestres consecutivos, fato inédito no levantamento da CNI, iniciado em 1992. Ela subiu 2,03% em relação a fevereiro (número dessazonalizado) e 9,53% em comparação com março de 2004. Neste ano, a soma dos salários já aumentou 9,12% em relação ao primeiro trimestre do ano passado.

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