Dólar dispara; real já perdeu 28,75%
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sexta-feira, 22 de janeiro de 1999
Agência Estado 
A cotação do dólar disparou ontem. No espaço de apenas seis horas, o preço da moeda norte-americana pulou de R$ 1,59 para R$ 1,70 nos negócios realizados no mercado de dólar comercial, resultando numa alta de 6,92%. Desde que mudou a política cambial brasileira, no dia 13 - primeiro com o alargamento do intervalo da banda cambial, substituída dois dias depois com a instituição do câmbio livre -, o real acumula uma queda de 28,75%, enquanto a valorização do dólar é de 40,36%. São conceitos distintos que exigem cálculos diferentes.
O dia de ontem mais uma vez foi de extrema tensão. No fim da manhã, o dólar já era negociado a R$ 1,69, mas foi no meio da tarde que atingiu o pico de R$ 1,76. A alta se alastrou para os outros mercados. A bolsa chegou a registrar queda de 7,27%, fechando em baixa de 4,60%.
O dólar flutuante chegou a ser cotado a R$ 1,80, mas sem negócios. No paralelo, a moeda também foi vendida por esse valor e fechou a R$ 1,75. Num ambiente de nervosismo, os boatos prosperaram. Circularam rumores sobre a suposta saída do ministro da Fazenda, Pedro Malan, e sobre uma eventual elevação mais forte dos juros.
Alguns operadores notaram a repercussão negativa das declarações do ex-ministro Celso Furtado, apostando que o Brasil será forçado a declarar moratória da dívida externa. Os comentários do megainvestidor George Soros, condenando a recente alta dos juros no Brasil e os maus conselhos do FMI, também contribuíram para piorar o humor do mercado. A tão esperada aprovação pelos deputados da MP que aumenta a contribuição dos servidores ativos e a estende aos inativos, na quarta-feira à noite, não teve nenhum efeito positivo.
A explicação de operadores para tanta turbulência é simples: demanda superior à oferta de moeda. Bancos que estavam abastecendo o mercado de dólares, com bastante parcimônia, teriam interrompido a venda da moeda, pressionando para cima a sua cotação. Não há um consenso sobre o volume de estoque de dólares existente no mercado. Mas estima-se que no último leilão de venda realizado pelo Banco Central, quando ainda operava no sistema de bandas cambiais, os bancos teriam adquirido até US$ 6 bilhões.
O estoque teria baixado US$ 1,1 bilhão, valor que corresponde às saídas de recursos do País desde o dia 13. De acordo com operadores, as instituições estariam segurando a venda dos dólares, diante da redução dos estoques, por precaução, já que não existe mais a figura do BC para abastecê-las, ou por especulação, para pressionar o preço da moeda. Assim, poderiam desovar os dólares restantes mais à frente, a preços mais altos.
Operadores notaram movimentos especulativos de compras de moeda liderado por bancos com dólares em caixa para induzir a uma alta artificial também para vendê-los mais na frente. Com as saídas de divisas superando as entradas, o preço do dólar ainda não encontrou o seu equilíbrio. A alta de ontem estimulou os exportadores a fechar contratos, fazendo as exportações contratadas atingir US$ 239 milhões até as 19h30, o maior volume registrado no mês. No entanto, as saídas financeiras ficaram em US$ 636 milhões até esse horário. O fluxo cambial estava negativo em US$ 143 milhões.


