A redução da meta fiscal para quase zero derrubou a bolsa brasileira ontem e provocou uma disparada na cotação do dólar em relação ao real, levando a moeda americana para perto de R$ 3,30, no maior nível desde março. Na última quarta-feira, o governo anunciou que a meta de superavit primário do setor público foi reduzida de 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) para 0,15% do PIB, o equivalente a R$ 8,747 bilhões.
O dólar à vista, referência no mercado financeiro, teve valorização de 1,91%, para R$ 3,288 na venda, maior patamar desde 19 de março, quando estava em R$ 3,305. Já o dólar comercial, usado no comércio exterior, avançou 2,16%, para R$ 3,296 – mesmo valor registrado em 19 de março, quando a moeda atingiu o maior patamar desde 1º de abril de 2003, de R$ 3,313. A divisa chegou a ser cotada a R$ 3,299 durante o dia.
Na Bolsa, o principal índice de ações do mercado nacional, o Ibovespa, fechou em baixa de 2,18%, para 49.806 pontos – menor pontuação desde 16 de março, quando estava em 48.848 pontos. Foi também a maior desvalorização diária desde 29 de maio, quando cedeu 2,25%. O volume financeiro foi de R$ 7,334 bilhões. Com este desempenho, o Ibovespa voltou a ter perda no ano, de 0,40%, após quatro meses com saldo positivo.
O economista e professor da FAE Business School, Gilmar Mendes Lourenço, disse que com a flexibilização da meta de superavit primário o governo reconheceu que abandonou o esforço de equilíbrio das contas públicas de 2015. Para ele, este fato somado à agência de classificação de risco Austin Rating que rebaixou a nota de crédito da dívida brasileira, fizeram a cotação do dólar disparar.
Segundo ele, com este quadro as empresas passam a comprar dólar e retirar as ações da bolsa. "O mercado fez uma leitura de negligência do governo em relação à política fiscal", disse. Agora, ele prevê que o Banco Central terá que manter os juros elevados para segurar a inflação.
Ele acredita que a alta do dólar deva continuar, o que vai depender da política econômica e das agências de risco. E, se outras agências de classificação de risco diminuírem a nota de crédito do Brasil, o País perde o grau de investimento. Com a nota de crédito mais baixa, fica mais difícil para o Brasil captar recursos externos com crédito mais escasso e mais caro.
"Com a nova meta de superavit primário, o mercado entendeu que o governo está recebendo um cheque em branco para continuar gastando. E os mercados só têm um jeito de se defender que é comprando dólar", disse.
Lourenço e o diretor técnico da Associação dos Analistas de Mercado de Capitais (Apimec), Marco Antônio dos Santos Martins, acreditam que os principais efeitos da alta do dólar são os aumentos dos preços das viagens internacionais, das dívidas em dólar e dos produtos importados. Martins disse que a alta do dólar vai refletir na inflação já que aumenta o preço de itens importados e de matérias-primas trazidas de outros países. O professor da FAE disse que a alta do dólar só beneficiaria as exportações se tivesse uma valorização mais consistente, sem tanta oscilação.
No entanto, Gilmar Lourenço não recomenda que as pessoas saiam comprando dólar só porque a moeda está valorizando. "O governo pode interferir no mercado de câmbio para fazer a cotação cair. Quem tem dólar, também deve esperar para vender", explicou. Ele acredita que o dólar comercial pode chegar a R$ 3,50 em poucos dias, mas também pode ser que isso não se concretize.
Ontem, o dólar era encontrado por até R$ 3,70 nas casas de câmbio já com o Imposto sobre Obrigações Financeiras (IOF) incluso. Para quem está com viagem marcada para breve, a orientação dos especialistas é comprar dólar agora e garantir a viagem. Se a viagem for feita num prazo maior, a dica é adquirir a moeda aos poucos, para conseguir um preço médio. (Com agências)

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