O dólar despencou ontem para R$ 1,665, uma desvalorização de 1,77% em um dia. O mercado derrubou os juros futuros e passou a apostar em uma queda mais forte nas taxas básicas, hoje, na reunião do Comitê de Política Monetária. Os juros básicos estavam em 39,5% ao ano ontem. O mercado espera um corte para até 30%. Os mais cautelosos falam em 36%.
O dólar não pára de cair por causa dos altos juros brasileiros. O investidor capta no mercado externo a 10% ao ano e vem investir aqui recebendo até 10% a mais. A intervenção do Banco Central no mercado tem sido insuficiente para conter a desvalorização do dólar. Ontem, ele teria comprado US$ 200 milhões sem conseguir segurar a queda.
‘‘Da mesma forma que as altas bruscas assustam, as quedas bruscas também. O exportador e o importador ficam sem referência’’, diz Carlos Gandolfo, da Pioneer Corretora de Câmbio. ‘‘O investidor externo está de olho na balança comercial’’, diz ele. ‘‘As exportações são uma forma mais saudável de trazer dólar ao País do que o investimento especulativo nos juros altos.
Se o dólar cai, as exportações brasileiras se tornam mais caras no mercado externo. As importações ficam baratas e crescem, gerando déficit comercial. Os investidores apostam que, sem queda forte nos juros hoje, a entrada de dólares vai continuar forte.
A venda da Comgás preocupa especialmente o mercado de câmbio. Estima-se que a empresa poderá ser vendida com ágio de até 40%. O comprador externo traria entre US$ 500 milhões e US$ 600 milhões na segunda-feira ou terça-feira próximas, para liquidação no dia 22. Se isso acontecer o dólar pode despencar com mais força ainda. Outra alternativa do BC seria evitar que os dólares para a compra da Comgás cheguem ao mercado. Poderia comprá-los diretamente do vencedor no leilão da Comgás. Mas, segundo a especialista de banco estrangeiro, o BC não tem interesse em comprar dólar e aumentar reservas. O BC precisa de reais e, se comprar dólar, tem de emitir títulos em reais pagando juros altos.
A expectativa de queda nos juros foi confirmada no leilão de títulos públicos prefixados. O BC vendeu R$ 1 bilhão de títulos de vencimento em 56 dias e pagou taxas de 31,54% ao ano, na máxima, e de 31,33%, na média. Na quinta-feira passada, os bancos pediram taxas máximas de 33,19% ao ano, na máxima, e de 33,02%, na média, para papéis de vencimento em 54 dias. Também no mercado futuro a queda foi forte: os juros projetados para abril caíram para 34,97% ao ano, contra 35,70% anteontem.

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