Dólar despenca e fecha abaixo dos R$ 2
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sexta-feira, 05 de março de 1999
Agência Folha 
O Banco Central nem precisou intervir no mercado de câmbio, ontem, para o real ganhar valor contra o dólar comercial. No fechamento, a cotação da moeda dos EUA ficou em R$ 1,985, uma valorização do real de 4,79% em um dia. Ficou, pela primeira vez desde o dia 22 de fevereiro, abaixo do patamar de R$ 2. Desde que Armínio Fraga assumiu a presidência do Banco Central, ontem, o real recuperou 8,82% de seu valor.
Na média ponderada de todos os negócios do dia divulgada pelo Banco Central, o dólar ficou a R$ 1,9934 ontem, uma queda de 5,16% em um dia e de 7,91% desde que Fraga tomou posse.
Ontem não houve pressão forte na ponta da compra de dólares. O ABN-Amro, que tinha um eurobônus de US$ 150 milhões vencendo no dia 9 e precisaria comprar dólares, conseguiu colocar novo papel no mercado externo no valor de US$ 100 milhões. O banco já tinha comprado mais do que os US$ 50 milhões restantes e foi visto, ontem, vendendo dólares. Também a corretora Votorantim, o Citibank e o Deutsche atuaram com força na ponta de venda, dizem especialistas. Segundo rumores, o Citi teria vendido até US$ 100 milhões no mercado.
Os investidores entraram vendendo dólares pois apostam que as cotações da moeda vão cair contra o real com um Banco Central mais atuante. A possibilidade de o governo poder gastar na defesa do real os recursos da ajuda do FMI e dos países ricos, prevista para chegar a US$ 41,5 bilhões, está assustando quem apostava em um dólar forte.
Além de um eurobônus de US$ 20 milhões da Brascam, não há novos papéis brasileiros vencendo no mercado externo na semana que vem. E US$ 20 milhões, em um mercado de câmbio que movimenta cerca de US$ 2,5 bilhões por dia, não é quase nada. É insuficiente para pressionar o dólar.
A grande pressão de compra do dólar, pelo menos neste mês, tem vindo de empresas que têm suas dívidas externas vendendo e não têm conseguido rolar esses papéis. Os investidores internacionais, em sua maior parte, ainda têm desconfiança sobre o futuro da economia brasileira e pedem juros altos demais para carregar os papéis das empresas brasileiras. Sem eurobônus e com Fraga, os investidores passaram a acreditar em uma semana mais calma.
Os contratos da Bolsa de Mercadorias & de Futuros projetaram um dólar mais fraco. Nos contratos para vencimento em abril, que indicam o dólar do último dia útil de março, a moeda dos EUA terminou o dia cotada a R$ 1,986, uma desvalorização de 3,77% contra ontem.
Com o alívio nas cotações, os importadores começaram a voltar ao mercado à vista, segundo Carlos Gandolfo, sócio da Pioneer Corretora de Câmbio. Ele também percebeu uma atuação dos exportadores vendendo dólares, mas em volumes pouco expressivos. Os grandes exportadores, principalmente de commodities como a soja, por exemplo, ainda não mostraram sua cara no mercado , afirmou Gandolfo.
O problema, afirma, são as caras linhas de crédito para os exportadores ingressarem com seus dólares no País antes de a exportação ter sido realizada, os chamados Adiantamentos de Contrato de Câmbio (ACCs).


