A moeda americana voltou a subir ontem em relação ao real. O dólar comercial, utilizado em transações de comércio exterior, fechou em alta de 2,06%, em R$ 3,762. Este é o maior valor da moeda desde 12 de dezembro de 2002, quando fechou cotado a R$ 3,79. Ao longo do dia, a cotação atingiu a máxima de R$ 3,773.
Já o dólar à vista, referência no mercado financeiro, encerrou a sessão com avanço de 1,95% sobre o real, cotado em R$ 3,746 na venda – também a maior cotação desde 12 de dezembro de 2002, quando valia R$ 3,791. A moeda chegou a valer até R$ 3,756 durante o pregão.
O quadro piorou depois que o governo entregou ao Congresso nesta semana uma proposta de orçamento para 2016 prevendo deficit primário de R$ 30,5 bilhões. Segundo o consultor de investimentos e sócio da Inva Capital, Raphael Cordeiro, a medida aumentou o temor de que o País perca seu selo de bom pagador atestado por agências internacionais de classificação de risco.
"Esta última alta é porque o governo não está conseguindo fechar o orçamento de 2016. Além disso, a economia não está indo bem. O Produto Interno Bruto (PIB) fechou o segundo trimestre com queda de quase 2%", disse. Ele lembrou que, neste ano, a moeda americana apresentou queda apenas entre fevereiro e abril. O dólar também está pressionado em função de especulações sobre uma possível saída do ministro Joaquim Levy. Ontem, a presidente Dilma Rousseff, defendeu o ministro afirmando que ele não está isolado ou desgastado dentro do governo.
Ela também admitiu ser ruim o deficit primário previsto para o próximo ano, mas garantiu que o governo não vai fugir da sua responsabilidade e tomará as medidas necessárias para reduzir o tombo nas contas públicas do País.
O economista Eduardo Moreira Garcia, do Conselho Regional de Economia do Paraná (Corecon), disse que a desaceleração da China também afeta a cotação da moeda americana no Brasil. Segundo ele, com os chineses comprando menos do Brasil, piora a balança de pagamentos que é formada pelas balanças comercial e de serviços. Com a piora da balança, o mercado acha que o País não vai ter capacidade de honrar os seus compromissos externos e os investidores acabam tirando remessas de dinheiro do Brasil, o que eleva o dólar.
Para ele, as indefinições sobre o orçamento de 2016 também influenciaram o dólar. Além disso, Garcia avalia que o mercado começou a "precificar" a possível perda do grau de investimento do País, ou seja, começaram a tirar investimentos em dólar do Brasil, o que faz a cotação da moeda disparar.
Os dois especialistas dizem que não é momento para comprar dólar. "Quem comprou, a recomendação é até vender uma parte. Investir em dólar foi bom há quatro anos", disse Cordeiro. Eles também concordam que a valorização da moeda americana é positiva para as exportações, mas ruim para as empresas que precisam importar mercadorias, insumos, peças e componentes.
Ainda acaba sendo negativo para quem pretende fazer viagens internacionais. Ontem, a cotação do dólar turismo chegou a quase R$ 4,00 nas casas de câmbio de Curitiba. A reportagem encontrou valores que variavam de R$ 3,88 a R$ 3,98.
Garcia e Cordeiro disseram que, neste momento, é muito difícil fazer uma previsão de como deve se comportar o dólar nos próximos meses. No entanto, Garcia não acredita que a cotação da moeda fique abaixo de R$ 3,60. (Com agências)

mockup