Salto del Guairá - Uma mistura de boas doses de esperança com uma ponta de frustração ronda as ruas da pequena cidade paraguaia de Salto del Guairá. Há pouco tempo, com o dólar cotado abaixo de R$ 2, a cidade, que é praticamente vizinha da paranaense Guaíra (158 km ao norte de Cascavel), recebia um número tão grande de turistas brasileiros - a maioria paranaenses - interessados em fazer compras que as ruas ficavam intransitáveis.
Com a crise econômica mundial e a consequente alta do dólar das últimas semanas, fenômeno que os jornais paraguaios chamam de ''el dolarazo'', o número de consumidores na cidade diminuiu significativamente. Os poucos turistas que especulam preços se assustam com o câmbio da moeda americana, que chega a R$ 2,60 em algumas lojas.
''A alta do dólar nos causa uma grande preocupação, pois reflete diretamente no comércio e no crescimento imobiliário, que responde por 80% da receita livre da nossa cidade. As nossas ruas deveriam estar muito mais cheias. Cultivamos a esperança de que o dólar americano pelo menos estabilize'', ressalta o prefeito de Salto del Guairá, Carlos Haitter.
Mesmo assim, ainda há um certo clima de euforia entre os que investem por lá, superando o desânimo pela cena das ruas e lojas mais vazias do que há alguns meses. O volume de obras da construção civil pela cidade é impressionante. Para qualquer lugar que se olhe há pedreiros trabalhando. Shoppings sendo levantados são quatro. Por trás de cada obra, orçamentos feitos em milhões de dólares. A aposta é que os turistas vão continuar aparecendo.
''Salto del Guairá deve explodir nos próximos cinco anos'', arrisca o gerente comercial Osni Soares. Nascido na cidade de Santo Antônio do Sudoeste (97 km a oeste de Francisco Beltrão), ele trabalha em uma rede de churrascarias que atua em cidades do Paraguai e do Brasil. Na loja que acaba de ser inaugurada no que será o maior shopping de Salto del Guairá, que está em fase final de construção, ele resolveu investir e comprou uma cota de 15%. Agora, além de gerenciar ele também é sócio da empresa em que trabalha. No entanto, quando a conversa se adianta ele admite que está preocupado. ''Nosso investimento total por aqui passa de US$ 1 milhão. É claro que estamos apreensivos''.
O shopping que abriga a churrascaria de Soares é o América. Ainda funcionando parcialmente, o empreendimento que pertence à América Kim S.A, empresa de um chinês e um sul-coreano, terá 24 mil metros quadrados de área construída depois de finalizado. O valor da construção, que também prevê um hotel e um prédio residencial, ultrapassa os US$ 10 milhões.
''Para tudo o que vamos fazer na obra dependemos do dólar. A instabilidade da cotação da moeda nos deixa em situação difícil. Por isso, antes de iniciar a obra chegamos a fixar um preço de câmbio com os contratantes pois, do contrário, seria impossível tocar a construção diante dessa instabilidade'', diz o engenheiro Derlis Franco, um dos sócios da D.F. Ingenieria, a empreiteira responsável pela obra.
A crise econômica também preocupa o administrador da Queen Anne Importados, o paranaense Dilermando Ferle. A loja, que é das mais movimentadas da cidade, tem atualmente 1,5 mil metros quadrados e investe US$ 1,5 milhão na construção de uma nova loja com 6,5 mil metros quadrados. Segundo ele, uma loja maior significa possibilidade de atender os fregueses cativos da empresa, que é de um paraguaio e funciona desde 1970.
''Por aqui, na atual situação, é preciso ter sede própria. O aluguel de um pequeno espaço custa mais de US$ 1 mil por mês. Além disso, é preciso vender muito, pois a margem de lucro é pequena, principalmente com o dólar a esse preço. Para você ter uma idéia, para cada 100 metros de loja precisamos ter 100 metros de armazém para estoque. A situação atual é semelhante àquela de 1998, quando o dólar chegou a R$ 4'', explica Ferle.
Na sexta-feira, dia que costuma ser de grande movimento em Salto del Guairá, o movimento de turistas era tímido. A queixa geral era sobre o preço das mercadorias. O preço em real, principalmente de eletroeletrônicos era muito semelhante ao que se pratica no Brasil. ''Estou pesquisando em várias lojas e percebo que muitas coisas não compensam'', comentou Thaís Sakamoto, de Maringá (Região Noroeste). Porém, para a irmã dela, Michelle Sakamoto, a viagem de quase 400 quilômetros compensou. ''Eu preciso de um carrinho de bebê. No Brasil, custa em torno de R$ 900. Aqui, encontrei o mesmo produto por R$ 300''.

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