Doenças ameaçam futuro do algodão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 03 de setembro de 1997
Oswaldo Petrin 
Paulo WolfgangRetrocessoFuzatto alerta para o risco de variedades suscetíveis e diz que está havendo um retrocesso tecnológico Todo avanço que a pesquisa em melhoramento genético conseguiu para obter plantas tolerantes a doenças e reduzir o uso de agrotóxicos, está caindo por terra. As novas variedades de algodão que estão sendo adotadas este ano oferecem melhor qualidade de fibra e boa arquitetura de planta para colheita mecanizada, mas são altamente suscetíveis a doenças, exigindo grande número de aplicações de agrotóxicos. Com a entrada de variedades portadoras de doenças também fica comprometido o manejo de pragas, uma tecnologia que vinha sendo adotada com sucesso pela extensão rural e agricultores.
O pesquisador Milton Fuzatto, 37 anos dedicados ao melhoramento genético no Instituto Agronômico de Campinas, mostra-se preocupado com o retrocesso tecnológico e o impacto que o uso de agrotóxicos, em grande quantidade, poderá causar ao ambiente daqui para frente, quando se prevê a infestação de doenças do algodoeiro acima do normal.
Doenças que reaparecem Milton Fuzatto relacionou doenças que haviam sido eliminadas há mais de 10 anos e que devem reaparecer agora com o que chamou de permissividade no âmbito das recomendações de variedades. Contempla-se o segmento industrial - indústrias de descaroçamento - que demanda fibras de melhor qualidade, mas sacrifica-se o produtor de matéria-prima.
As variedades tradicionais, que agora correm o risco de ser postergadas, apresentam o equilíbrio entre os interesses dos setores envolvidos. Não produzem fibras tão boas, mas são variedades altamente produtivas e econômicas do ponto de vista de manejo.
Muito veneno Para Fuzatto, a recomendação de certas variedades representa um retrocesso na história do melhoramento de plantas. E se a tecnologia vinha comemorando a redução de aplicações de veneno de 10 para cinco ou seis aplicações, agora terá de assistir ao retorno de aplicações preventivas em número acima de 12 numa única safra. Em Mato Grosso do Sul, ano passado, houve quem fizesse 18 aplicações de veneno na mesma lavoura.
A palestra de Fuzatto, seguida de debate, foi ontem de manhã durante o 1º Ciclo de Palestras para Atualização de Técnicos e Produtores de Algodão, Feijão, Milho e Soja, promovido pela Fapeagro - Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio. O Ciclo continua hoje, com debate sobre soja. Ele disse que a opção preferencial por variedades que apresentam melhor fibra é um direito de produtores e das indústrias. Mas o preço desse melhoramento, tanto em impacto ambiental como no custo de produção da lavoura é muito alto e, além disso, é uma opção que não se sustenta por muito tempo porque a dependência da agroquímica acaba por inviabilizar economicamente a cultura.
O especialista também relacionou as doenças que devem reaparecer nas lavouras de algodão dos Estados de São Paulo e Paraná, tipos de tratamento que requerem e seu custo monetário; também deu noção do impacto ambiental, ao frisar que algumas dessas doenças ou vermes (caso dos nematóides) vão atacar outras culturas.
A murcha do fusarium é uma doença que foi controlada na década de 60, mas que está voltando agora - insistiu - com a introdução da variedade Deltapine Acala 90 , que é suscetível a outras doenças fúngicas ou bacterianas, como a Ramulose (fúngica), a mancha angular (bacteriana), e Murcha do Fusarium, entre outras.
Os nematóides, dependendo da espécie ou raça, não atacam apenas o algodão. Eles vão para a cana-de-açúcar, café e tomate. As variedades de algodão suscetíveis ao verme parasita vão servir de alimento e, ao mesmo tempo, vão ser o agente propagador dos nematóides.
O pesquisador apresentou estudo sobre 18 variedades de algodão, algumas delas, como a Deltapine, já foram plantadas em grandes áreas de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. São variedades adaptadas à colheita mecânica e oferecem boa qualidade de fibra - reconheceu. A dúvida, segundo Fuzatto, é saber se vale a pena pagar um preço tão alto para obter uma boa fibra. As variedades tradicionais também foram feitas para produzir fibras.
No Paraná Além de falar sobre as novas variedades, Fuzatto informou que a variedade Codetec 401, da Ocepar, para o Estado do Paraná, é suscetível a nomatóides e murcha do fusarium. São exatamente os dois problemas mais sérios que existem em termos de doenças do algodoeiro, afirmou o pesquisador, um dos nomes mais respeitados na comunidade técnica.
Essas variedades que estão sendo introduzidas no Brasil são de origem norte-americana, criadas por empresas idôneas e competentes. Só que se destinam a ambientes completamente diferentes da nossa realidade. As doenças que elas propagam no nosso ambiente, simplesmente não existem no Mississipi, por exemplo, onde são cultivadas com sucesso. Algumas dessas variedades inviabilizaram o algodão no Paraguai três anos atrás, em consequência de rápida expansão da chamada doença azul do algodoeiro, causada pelo vírus do mosaico das nervuras. Na década de 60 esta doença foi controlada no Brasil, conforme lembrou o técnico.


