Doces tradicionais resistem ao tempo
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de maio de 2010
Gisele Mendonça<br> Reportagem Local 
Uma simples e fantástica fábrica de pipoca doce, onde o milho canjicão explode a cada quinze minutos dentro dos canhões assim como era há 30 anos. A poucos metros dali, uma grande empresa de 40 anos faz questão de manter em sua produção guloseimas como maria-mole, pé de moleque, suspiro cor-de-rosa e por aí afora. Os dois empreendimentos mostram que a tradição dos doces que marcaram a infância de muita gente mantém-se viva em Arapongas.
O segmento já teve maior importância econômica na cidade - que chegou a contar com mais de 30 empresas de guloseimas entre as décadas de 1980 e 1990. Hoje, as grandes voltaram-se para balas e biscoitos, e algumas pequenas ainda resistem na produção praticamente caseira de doces tradicionais. Entre estas está a Pipocas Brasinha, chefiada pelo casal Manoel Augusto de Ornellas e Anna Maria Tozatto com a ajuda dos filhos Mariana, 23 anos, e Henrique, 21.
Sem funcionários, os quatro tocam a fábrica exatamente como tudo começou. O negócio é pré-histórico, avisa Ornellas, antes de levar a equipe de reportagem para o barracão de 300 metros quadrados que fica na frente da casa da família em um bairro de Arapongas. Sobre um mezanino improvisado, Henrique recomenda: Tape os ouvidos que vai explodir. Ele opera dois canhões - nome dado para as máquinas de estourar pipoca -, onde são colocados os grãos de milho canjicão (específico para este tipo de pipoca) que, literalmente, explodem depois de uns 15 minutos de pressão sobre o fogo. Ao contrário da pipoca de panela, o estampido é um só - e muito alto. Tanto que Henrique só trabalha com protetor de ouvido.
Dali, as pipocas descem por uma espécie de funil gigante. São peneiradas, selecionadas e vão para a drajadeira - máquina que lembra uma betoneira -, onde são torradas e açucaradas. O processo dura umas três horas. Depois, são embaladas e seguem para o comércio. O produto chega a estabelecimentos comerciais num raio de 150 quilômetros de Arapongas. Ornellas vai pessoalmente atender aos pedidos dos clientes - todos considerados cativos. Hoje tenho um produto de excelente qualidade com preço acima da média e valorizado por clientes de 20 anos, orgulha-se.
Mas nem sempre foi assim. Em 1981, a família entrou no ramo por necessidade e, sem experiência, nos primeiros anos fez uma pipoca de qualidade inferior, com o menor preço do mercado. A pipoca era tão horrorosa que nunca vendíamos a segunda vez no mesmo lugar, relembra Ornellas. Quando surgiu no mercado a pipoca torrada e açucarada, a família pegou como referência a melhor marca da praça e tentou fazer igual. O resultado ficou acima do esperado. O mérito é de Anna Maria, que demorou dois anos para aprimorar a receita. Foi o pulo do gato do negócio - e o que o mantém até hoje.
Se ela (Anna Maria) não estiver aqui torrando e caramelizando não tem mais pipoca, defende Ornellas. É só colocar a quantidade certa de açúcar, não tem segredo, descomplica Anna Maria. O fato é que a pipoca ganhou fama e melhorou muito a vida da família. Entre as décadas de 1980 e 1990, a fábrica chegou a produzir 700 fardos de 50 saquinhos de 15 gramas por dia. O Dia de São Cosme e São Damião (27 de setembro, dia em que algumas pessoas mantêm a tradição de presentear crianças com doces) já foi uma data importante para alavancar as vendas, mas hoje o melhor momento é o clima frio.
Apesar de manter o processo artesanal, a embalagem foi modernizada: a mais vendida é de tamanho parecido com o dos pacotes de salgadinho (200 gramas). Quanto ao futuro do negócio, eles já decidiram: a fábrica será mantida até quando a própria família quiser tocar. Mas os filhos não mostram interesse em continuar a saga dos pais. Mariana e Henrique cursam Direito e pretendem seguir carreira - há outros dois filhos que são casados e moram fora. É muito trabalhoso e cansativo (fazer pipoca). Mas se um dia eu passar por alguma necessidade, é para a fábrica que vou recorrer, planeja Mariana.
Ornellas e Anna Maria reconhecem que hoje levam o negócio em banho-maria. E não estão preocupados. Eu sonhava comprar uma moto (custom, para viajar a lazer) e a pipoca me deu muito mais que isso. Hoje, a fábrica para nós é saúde. Paramos para tomar café da tarde juntos e ganhamos o suficiente para sermos felizes, resume o microempresário, sem revelar a renda e a produção.


