Uma sim­ples e ‘‘­fantástica’’ fá­bri­ca de pi­po­ca do­ce, on­de o mi­lho can­ji­cão ex­plo­de a ca­da quin­ze mi­nu­tos den­tro dos ca­nhões as­sim co­mo era há 30 ­anos. A pou­cos me­tros da­li, uma gran­de em­pre­sa de 40 ­anos faz ques­tão de man­ter em sua pro­du­ção gu­lo­sei­mas co­mo ma­ria-mo­le, pé de mo­le­que, sus­pi­ro cor-de-ro­sa e por aí afo­ra. Os ­dois em­preen­di­men­tos mos­tram que a tra­di­ção dos do­ces que mar­ca­ram a in­fân­cia de mui­ta gen­te man­tém-se vi­va em Ara­pon­gas.
  O seg­men­to já te­ve ­maior im­por­tân­cia eco­nô­mi­ca na ci­da­de - que che­gou a con­tar com ­mais de 30 em­pre­sas de gu­lo­sei­mas en­tre as dé­ca­das de 1980 e 1990. Ho­je, as gran­des vol­ta­ram-se pa­ra ba­las e bis­coi­tos, e al­gu­mas pe­que­nas ain­da re­sis­tem na pro­du­ção pra­ti­ca­men­te ca­sei­ra de do­ces tra­di­cio­nais. En­tre es­tas es­tá a Pi­po­cas Bra­si­nha, che­fia­da pe­lo ca­sal Ma­noel Au­gus­to de Or­nel­las e An­na Ma­ria To­zat­to com a aju­da dos fi­lhos Ma­ria­na, 23 ­anos, e Hen­ri­que, 21.
  Sem fun­cio­ná­rios, os qua­tro to­cam a fá­bri­ca exa­ta­men­te co­mo tu­do co­me­çou. ‘‘O ne­gó­cio é pré-­histórico’’, avi­sa Or­nel­las, an­tes de le­var a equi­pe de re­por­ta­gem pa­ra o bar­ra­cão de 300 me­tros qua­dra­dos que fi­ca na fren­te da ca­sa da fa­mí­lia em um bair­ro de Ara­pon­gas. So­bre um me­za­ni­no im­pro­vi­sa­do, Hen­ri­que re­co­men­da: ‘‘Ta­pe os ou­vi­dos que vai ­explodir’’. Ele ope­ra ­dois ca­nhões - no­me da­do pa­ra as má­qui­nas de es­tou­rar pi­po­ca -, on­de são co­lo­ca­dos os ­grãos de mi­lho can­ji­cão (es­pe­cí­fi­co pa­ra es­te ti­po de pi­po­ca) que, li­te­ral­men­te, ex­plo­dem de­pois de uns 15 mi­nu­tos de pres­são so­bre o fo­go. Ao con­trá­rio da pi­po­ca de pa­ne­la, o es­tam­pi­do é um só - e mui­to al­to. Tan­to que Hen­ri­que só tra­ba­lha com pro­te­tor de ou­vi­do.
  Da­li, as pi­po­cas des­cem por uma es­pé­cie de fu­nil gi­gan­te. São pe­nei­ra­das, se­le­cio­na­das e vão pa­ra a dra­ja­dei­ra - má­qui­na que lem­bra uma be­to­nei­ra -, on­de são tor­ra­das e açu­ca­ra­das. O pro­ces­so du­ra ­umas ­três ho­ras. De­pois, são em­ba­la­das e se­guem pa­ra o co­mér­cio. O pro­du­to che­ga a es­ta­be­le­ci­men­tos co­mer­ciais num ­raio de 150 qui­lô­me­tros de Ara­pon­gas. Or­nel­las vai pes­soal­men­te aten­der aos pe­di­dos dos clien­tes - to­dos con­si­de­ra­dos ca­ti­vos. ‘‘Ho­je te­nho um pro­du­to de ex­ce­len­te qua­li­da­de com pre­ço aci­ma da mé­dia e va­lo­ri­za­do por clien­tes de 20 ­anos’’, or­gu­lha-se.
  Mas nem sem­pre foi as­sim. Em 1981, a fa­mí­lia en­trou no ra­mo por ne­ces­si­da­de e, sem ex­pe­riên­cia, nos pri­mei­ros ­anos fez uma pi­po­ca de qua­li­da­de in­fe­rior, com o me­nor pre­ço do mer­ca­do. ‘‘A pi­po­ca era tão hor­ro­ro­sa que nun­ca ven­día­mos a se­gun­da vez no mes­mo ­lugar’’, re­lem­bra Or­nel­las. Quan­do sur­giu no mer­ca­do a pi­po­ca tor­ra­da e açu­ca­ra­da, a fa­mí­lia pe­gou co­mo re­fe­rên­cia a me­lhor mar­ca da pra­ça e ten­tou fa­zer ­igual. O re­sul­ta­do fi­cou aci­ma do es­pe­ra­do. O mé­ri­to é de An­na Ma­ria, que de­mo­rou ­dois ­anos pa­ra apri­mo­rar a re­cei­ta. Foi o pu­lo do ga­to do ne­gó­cio - e o que o man­tém até ho­je.
  ‘‘Se ela (An­na Ma­ria) não es­ti­ver ­aqui tor­ran­do e ca­ra­me­li­zan­do não tem ­mais ­pipoca’’, de­fen­de Or­nel­las. ‘‘É só co­lo­car a quan­ti­da­de cer­ta de açú­car, não tem ­segredo’’, des­com­pli­ca An­na Ma­ria. O fa­to é que a pi­po­ca ga­nhou fa­ma e me­lho­rou mui­to a vi­da da fa­mí­lia. En­tre as dé­ca­das de 1980 e 1990, a fá­bri­ca che­gou a pro­du­zir 700 far­dos de 50 sa­qui­nhos de 15 gra­mas por dia. O Dia de São Cos­me e São Da­mião (27 de se­tem­bro, dia em que al­gu­mas pes­soas man­têm a tra­di­ção de pre­sen­tear crian­ças com do­ces) já foi uma da­ta im­por­tan­te pa­ra ala­van­car as ven­das, mas ho­je o me­lhor mo­men­to é o cli­ma ­frio.
  Ape­sar de man­ter o pro­ces­so ar­te­sa­nal, a em­ba­la­gem foi mo­der­ni­za­da: a ­mais ven­di­da é de ta­ma­nho pa­re­ci­do com o dos pa­co­tes de sal­ga­di­nho (200 gra­mas). Quan­to ao fu­tu­ro do ne­gó­cio, ­eles já de­ci­di­ram: a fá­bri­ca se­rá man­ti­da até quan­do a pró­pria fa­mí­lia qui­ser to­car. Mas os fi­lhos não mos­tram in­te­res­se em con­ti­nuar a sa­ga dos ­pais. Ma­ria­na e Hen­ri­que cur­sam Di­rei­to e pre­ten­dem se­guir car­rei­ra - há ou­tros ­dois fi­lhos que são ca­sa­dos e mo­ram fo­ra. ‘‘É mui­to tra­ba­lho­so e can­sa­ti­vo (fa­zer pi­po­ca). Mas se um dia eu pas­sar por al­gu­ma ne­ces­si­da­de, é pa­ra a fá­bri­ca que vou ­recorrer’’, pla­ne­ja Ma­ria­na.
  Or­nel­las e An­na Ma­ria re­co­nhe­cem que ho­je le­vam o ne­gó­cio em ba­nho-ma­ria. E não es­tão preo­cu­pa­dos. ‘‘Eu so­nha­va com­prar uma mo­to (cus­tom, pa­ra via­jar a la­zer) e a pi­po­ca me deu mui­to ­mais que is­so. Ho­je, a fá­bri­ca pa­ra nós é saú­de. Pa­ra­mos pa­ra to­mar ca­fé da tar­de jun­tos e ga­nha­mos o su­fi­cien­te pa­ra ser­mos ­felizes’’, re­su­me o mi­croem­pre­sá­rio, sem re­ve­lar a ren­da e a pro­du­ção.

mockup