Tóquio - Brasileiros que seguiram para o Japão como trabalhadores da indústria no início dos anos 90 estão se tornando empresários por lá mesmo. A Câmara de Comércio Brasileira no Japão estima que já haja mais de 400 empresas montadas pelos dekasseguis.
''Isso inclui desde pequenos negócios, como botecos, salões de cabeleireiro e venda de roupas até consultorias, empresas de software, recursos humanos e até fábricas de alimentos como pães e mortadela'', explica Ricardo Minoru Koike, diretor da Câmara, ele próprio dono de uma agência de recursos humanos - uma ''empreiteira'', como são conhecidas entre os brasileiros as empresas que subcontratam a mão de obra dos imigrantes para grandes indústrias. Koike também fabrica fibras óticas, em parceria com empresas japonesas.
''No começo, as pessoas vinham apenas para ganhar dinheiro e voltavam para o Brasil. Agora, estão abrindo empresas aqui mesmo - e também lá'', afirma Koike. ''As empresas que já alcançaram um porte maior, umas 20 ou 30, mais ou menos, já começam a despertar a atenção dos investidores japoneses'', comemora. Ele destaca ainda que a presença numerosa dos brasileiros está promovendo a ''divulgação'' dos produtos brasileiros no Japão. Um dos eventos dos quais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa no dia 28, em seu encontro com a comunidade brasileira em Nagoya, é uma feira de empresas formadas por dekasseguis.
Visto permanente - Segundo dados do governo japonês, dos 274,7 mil brasileiros que hoje residem no país, mais da metade, cerca de 140 mil pessoas já são consideradas ''residentes por longo período''. Mais e mais brasileiros estão permanecendo por períodos cada vez mais longos no Japão.
Na comunidade de Hamamatsu, a mais numerosa do Japão, com cerca de 15 mil pessoas, já são considerados comuns os casamentos com japoneses, o financiamento de casas próprias e a matrícula de brasileiros nas universidades japonesas, por exemplo.
Além da consolidação de laços sociais, o principal fator apontado para essa permanência mais longa dos brasileiros é o achatamento dos salários pagos nas indústrias nos últimos anos, com a desaceleração da economia japonesa ao longo dos anos 90. Ou seja, atualmente é preciso permanecer mais anos trabalhando para economizar uma determinada quantia.
''Como a tendência da comunidade brasileira tem sido a de permanecer mais tempo, já começam a acontecer várias mudanças. Os bancos japoneses, por exemplo, já estão abrindo a possibilidade de financiar casas para brasileiros por até 30 anos'', conta Cássia Hirase, assistente social na Hamamatsu Foundation for International Communications and Exchanges, instituição ligada à Prefeitura de Hamamatsu e destinada a apoiar os estrangeiros que vivem na cidade.
O empresário paulista Maurício Takahashi é um exemplo dessa mudança. Quatorze anos atrás, ele chegou ao Japão com o intuito de permanecer no máximo três anos para economizar dinheiro. Hoje, aos 37 anos, já tem o visto permanente. Comprou casa própria em Hamamatsu e é casado com uma japonesa, com dois filhos. A última vez que Maurício voltou para o Brasil foi há dois anos. ''Antes, eu pensava em juntar um dinheiro para comprar um apartamentinho lá. Agora, não tenho nenhuma perspectiva de voltar'', conta ele, que vendeu o apartamento em São Paulo, comprado com a economia de anos atrás.

mockup