Um vídeo de poucos segundos no TikTok ou um rolar de tela no Instagram podem parecer entretenimento despretensioso, mas para o mercado gastronômico do Paraná transformaram-se em uma poderosa engrenagem econômica. Do crocante e saboroso morango do amor às recheadas fatias de bolo, o que viraliza nas redes sociais impacta a renda de quem mergulha de cabeça nas tendências.

Se no meio do ano passado o grande fenômeno foi o morango do amor — que juntou a fruta com um brigadeiro branco e uma cobertura vermelha em uma febre nacional de consumo —, os holofotes digitais mais recentes se voltaram para as fatias de bolo gigantes e ultrarecheadas. Essas ondas de sucesso mostram que o cardápio da internet se renova com rapidez, mas abrem oportunidades lucrativas para quem sabe aproveitar o momento.

Caren Santos é coordenadora Estadual de Agronegócios do Sebrae-PR (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Paraná) e explica que sempre que uma tendência toma conta da internet e das redes sociais, principalmente relacionada a algum produto gastronômico, isso traz um impacto positivo para os empreendedores, tanto aqueles que fornecem os insumos quanto aqueles que, de fato, dão forma ao doce.

Um exemplo claro disso é o morango do amor, que viralizou na internet e beneficiou até mesmo quem produzia a fruta. “Alguns dos nossos produtores atendidos relataram um aumento na procura pelo morango para atender essa busca dos consumidores”, explica.

O auge do morango

Esse é o caso do produtor rural Silvio Galvan, que tem uma propriedade com 10 mil metros quadrados de estufa para a produção de morangos. O terreno, em Mandirituba, na Região Metropolitana de Curitiba, conta com mais de 80 mil plantas. Em média, cada planta produz um quilo da fruta por ano.

Na época em que a “febre” do morango do amor ganhou as redes e as confeitarias, ele conta que era um período de entressafra e trouxe uma alta nas vendas da fruta muito positiva. O produtor enchia as gôndolas dos supermercados da região de Curitiba, mas a demanda era tanta que precisava repor as frutas com uma frequência absurda.

Segundo ele, um único cliente chegava a levar até 40 quilos da fruta de uma vez, com medo de faltar a matéria-prima para o morango do amor. O quilo da fruta, que costumava ser vendido a R$ 20, chegou a custar R$ 150.

Para suprir a demanda, eles chegaram a buscar o morango em outras regiões do Paraná e até mesmo em outros estados. O produtor afirma que, para ele, a tendência poderia sempre continuar em alta, já que os ganhos foram excelentes.

O poder das redes sociais

A internet, na visão da coordenadora, é o que potencializa as tendências e os novos produtos, permitindo que eles cheguem a um grande número de pessoas de uma maneira muito mais rápida. E é esse comportamento dos consumidores que acaba gerando oportunidades de negócios para os empreendedores. Entretanto, a especialista alerta que é fundamental ficar atento a alguns detalhes para não arriscar, já que, na grande maioria das vezes, as tendências viralizam dentro de um curto espaço de tempo.

Ao passo que a maior parte das tendências nasce nas redes sociais, ela também é fundamental na hora de vender o produto, levando-o até os clientes de maneira mais ágil. Além disso, também é fundamental para manter e fidelizar os consumidores.

“O empresário precisa ficar atento aos seus canais e seus mecanismos de divulgação para tanto atrair novos quanto, principalmente, manter os consumidores”, afirma. “A internet é essencial. É impossível empreender hoje sem pensar o uso da internet para comunicar sobre a empresa e os produtos”, complementa.

Na maioria das vezes, essa comunicação entre a empresa e o seu consumidor pode vir de publicações do dia a dia de produção, como fotos e vídeos do preparo, os ingredientes que são utilizados e, é claro, o produto final. “Isso ajuda a criar um sentimento de fidelidade nos clientes ou de curiosidade. Essa dinâmica com as redes sociais tem que fazer parte da rotina dos empreendedores”, afirma.

Os empreendedores devem ficar atentos em como comercializar esse tipo de produto, quem é o público-alvo e qual a capacidade de produção, já que, quando viralizam, a demanda acaba sendo grande. Como não existe uma fórmula exata sobre quando as tendências vão chegar ou ir embora, o conselho é nunca pautar um negócio em um único produto “da moda”. “É necessário enxergar oportunidades a longo prazo”, orienta.

No caso do morango do amor, alguns empreendedores acabam criando outras “frutas do amor” depois que o doce viralizou nas redes sociais, como a uva do amor. “É sempre legal analisar de onde que surgiu, tentar entender um pouco do conceito da tendência, qual é o princípio, o que levou os consumidores a quererem isso e, a partir desse conceito, o empreendedor pode pensar na sua ideia de negócio ou no seu novo produto”, aponta.

Um toque especial

Apesar de seguir uma tendência, a coordenadora do Sebrae reforça a importância de que os empreendedores deem aquele toque pessoal na produção, seja nos diferentes sabores ou na apresentação, já que é isso que vai permitir com que eles se destaquem e tragam uma experiência personalizada para os consumidores.

Ela cita o exemplo de uma empresa do litoral paranaense que inovou ao fazer uma farofa utilizando a bala de banana, um produto que tem bastante força na região. “Esses produtos que dão um toque diferente, que buscam usar coisas locais e que são característicos, que tem uma história, isso também cria conexão com o consumidor”, detalha.

Um boom no faturamento

A empresária Larissa Bruder Granado Garcia, de 25 anos, afirma que as tendências que viralizam nas redes são muito boas para quem vive da confeitaria, por exemplo. No início da “febre” do morango do amor, ela conta que ficou meio resistente em começar, mas seguiu o conselho de uma funcionária e se arriscou. “Eu me rendi e falei vou fazer e vamos ver o que vai dar”, conta.

E deu muito certo. Ela explica que utilizava o Ifood, mas não tinha muitas vendas pela plataforma. Quando o doce entrou no cardápio, as vendas dispararam. “Todo dia era pedido atrás de pedido. Eu lembro que teve um dia que a gente fez 100 vendas. Foi muito bom para mim porque foi uma época em que eu ganhei muito dinheiro”, afirma.

Apesar disso, ela afirma que filtra bem as tendências que vai seguir de acordo com o perfil do seu próprio negócio, então acaba deixando de lado algumas. “Eu preciso estudar e ver se realmente cabe no meu negócio, se é algo que meus clientes comprariam e gostariam”, complementa.

A onda do momento é o x-bolo, com o bolo imitando o pão, um brigadeiro em formato de hambúrguer e uma calda doce para simular a maionese. “Eu sempre estou de olho nas redes para ver as tendências”, garante. No momento, ela já produz o long cake, um bolo retangular e comprido, que já vem ganhando popularidade na confeitaria.

Lucro

Durante o tempo em que o doce ficou no cardápio da confeitaria, ela estima que chegou a produzir mais de 700 unidades, com preços variando entre R$ 12 e R$ 15. “Por cima, a gente chegou a vender uns 10 mil só de morango do amor”, conta.

Para oferecer mais opções aos clientes, ela conta que tinha no cardápio o tradicional, com o brigadeiro branco e o caramelo vermelho, mas também sabores diferentes, como chocolate belga, brigadeiro de pistache e maracujá.

Hoje, a confeiteira encerrou a produção dos morangos do amor, já que a demanda caiu e as pessoas perderam o interesse pelo doce. “Eu não tive mais procura, então acho que foi um hype que explodiu e depois ninguém mais falou sobre”, explica. Entretanto, com a chegada das festas juninas, a expectativa é que o doce volte a ditar moda.

Novas tendências

A empresária também comenta sobre a tendência dos doces fitness, sem açúcar e sem lactose, por exemplo. Ela opina que é um mercado muito bom para trabalhar e até chegou a fazer um curso em uma escola de São Paulo sobre confeitaria saudável. Ela quer, a longo prazo, abrir uma linha de doces fitness, já que no momento a estrutura que ela tem não suporta duas produções, já que é necessário ter equipamentos diferentes por conta do risco da contaminação cruzada em doces livres de glúten e lactose, por exemplo. “É uma onda super boa de investir e de trabalhar porque hoje em dia está todo mundo prezando muito mais por cuidar da saúde, comer alimentos sem açúcar”, avalia.

As fatias de bolo

É de comer com os olhos. É essa a frase que sintetiza a popularidade das fatias de bolo que viralizaram na internet nos últimos meses. O cliente chega, escolhe os sabores e pode levar para casa uma bela fatia de bolo, bem recheado e bem molhadinho. Sem falar na decoração, sempre um show a parte.

Para a empresária Sthefany Souza, 32, esse é o motivo de tanto sucesso. A confeiteira, que já trabalhava com bolos, doces e salgados por encomenda, foi a primeira a trazer as fatias para Cambé há cerca de um ano. No começo, ela levava apenas dois bolos, mas a demanda foi crescendo cada vez mais, tanto é que desde dezembro ela tem uma barraca exclusiva para as fatias, participando de seis feiras na cidade.

A tendência nasceu e se popularizou na internet, assim como o negócio de Souza, já que foi por meio dos vídeos postados em redes sociais como o TikTok e Instagram que as vendas bombaram. Segundo elas, muitas pessoas só ficaram sabendo que as fatias tinham chegado em Cambé por conta da internet.

É muito bolo

Há cerca de duas semanas, a confeiteira participou de um festival de fatias no estacionamento de um supermercado de Cambé em que vendeu cerca de 1 mil pedaços, totalizando mais de 500 quilos de bolo. “O mínimo que a gente leva é 700 fatias”, afirma. A produção é cansativa, já que ela e o marido fazem tudo, da massa aos recheios. Para isso, o casal tem investido em maquinário, o que facilita os processos. “Nós já chegamos a ficar dois trabalhando dia e noite, sem dormir”, conta.

Na visão da empresária, a variedade de sabores é um dos motivos do sucesso das fatias, já que os clientes podem levar diferentes opções sem precisar comprar um bolo inteiro, por exemplo. “Toda a feira a gente tenta renovar os sabores”, afirma. Entretanto, os mais pedidos estão sempre no cardápio, como o de pudim, o de ninho com morango e o de maracujá com chocolate.

Para quem empreende, as tendências que viralizam na internet são excelentes, comenta a confeiteira.

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