Dívida será renegociada caso a caso
César AugustoRicardo Conceição assina como testemunha do primeiro contrato de CPR realizado na Sala de AgronegóciosNa entrevista à Folha, o diretor de Crédito Rural do Banco do Brasil, Ricardo Conceição, dá a versão oficial sobre o impacto da crise financeira internacional. Afirma que, neste momento, os recursos captados no exterior (‘‘63 caipira’’) não são uma boa opção. Mas garante que o volume de recursos para o setor e as taxas anunciadas não serão alterados.
Folha Sr. Ricardo, dia 31 de outubro vence a segunda parcela da securitização agrícola. O setor reclama que está descapitalizado, que algumas culturas, como trigo, tiveram perdas. O governo, junto com o BB, pode prorrogar o pagamento da segunda parcela?
Ricardo ConceiçãoOlha, nós temos situações em que os produtores terão dificuldades para pagar. Como regra geral, o banco vai cobrar porque são créditos do tesouro e cabe ao banco receber. Mas existe casos em que o produtor perdeu até 100% da safra, alguns perderam arroz, algodão e trigo. Ou seja, são situações isoladas que nós vamos examinar. Já estamos conversando com o governo no sentido de adotarmos um procedimento lógico. Aqueles que podem pagar, vamos ver a capacidade de pagamento, vão pagar. Aqueles que perderam a safra terão o pagamento prorrogado, só que nós vamos examinar caso a caso, dentro dos critérios estabelecidos pelo Banco Central.
FolhaNesta segunda parcela o BB espera receber quanto?
RicardoNa primeira parcela o BB recebeu mais ou menos a metade do montante da dívida. De R$ 700 milhões que era o total, o banco recebeu aproximadamente R$ 350 milhões, o restante foi prorrogado. Este ano, a parcela é mais ou menos desta ordem, achamos que este ano a parcela que será prorrogada será menor que a do ano passado.
FolhaA abertura dos recursos obtidos para outros setores, como o pagamento de títulos da dívida pública, não prejudica a agricultura, uma vez que os recursos ficam mais pulverizados?
Ricardo Nós estamos mantendo todo o programa oficial do governo de assistência à safra, os recursos vão continuar sendo liberados. Agora em outubro já identifiquei a possibilidade de liberar pelo menos R$ 645 milhões para safra, aqui para o Paraná pelo menos R$ 100 milhões, já a partir de primeiro de outubro. As taxas de juros estão sendo mantidas. Agora, os recursos externos estão mais difíceis de aplicar na agricultura porque os custos subiram muito, então hoje para aplicar no setor com juros elevados, é preferível não aplicar, estamos um pouco retraídos para aplicar recursos da ‘‘63 Caipira’’, então vamos deixar que o mercado se clarei mais, para que a gente volte a aplicar recursos externos no setor, por enquanto vamos administrar os recursos externos.
FolhaPequenos produtores de algodão do Paraná estão reclamando que algumas agências do BB estão indefirindo o pedido de financimento alegando a inviabilidade da cultura. Existe alguma instrução para isso?
RicardoExiste a instrução geral, não só para o algodão, qualquer cultura que nós, não só o BB, mas os órgãos de assitência técnica. Se a análise técnica indicar a inviabilidade da cultura, nós não devemos financiar, porque senão teremos num segundo momento os produtores em dificuldade. Então este é um trabalhos que temos que fazer em conjunto, produtores, bancos e Emater, temos que examinar para verificar se é economicamente viável ou não, e não deixar o produtor com o desejo de plantar uma cultura que seja inviável, temos que ser profissionais nesta relação. Agora em caso de problema, isso pode ser visto, a superintendência do banco supervisiona isso, temos técnicos, jamais vamos dizer que é inviável sem uma base técnica. Não queremos de maneira nenhuma prejudicar os produtores, pelo contrário, queremos apoiá-los, mas não a ponto de em um segundo momento ele se encontrar em dificuldade.
FolhaA circular aprovando o Pronaf Especial (Pronafinho) saiu há 30 dias, e alguns produtores estão reclamando que o dinheiro ainda não chegou ao Paraná...
RicardoNão, o Paraná é o Estado onde esta linha está tendo o melhor desempenho. Se você pegar a região de Cascavel, que eu tenho números na cabeça, já são mais de 12 mil pronafinhos feitos. Aliás, naquela região, tem um trabalho extraordinário dos prefeitos de cerca de 40 municípios já criaram o fundo de aval para apoiar o desenvolvimento do Pronaf, porque eles perceberam a importância que significa para seus municípios, a assistência que o banco presta aos seus produtores. O fundo de aval, agiliza porque melhora - não que o banco não vá analisar liberação de crédito - mas simplicifica na mendida que os produtores não tem garantia suficiente, não tem condição de aval, o fundo ajuda. É claro que existe uma grande quantidade de pequenos produtores a ser atendidos, e pode se encontrar alguns que não são atendidos, mas ano a ano aumentamos o números de produtores atendidos.
FolhaUma dúvida que atingiu os representantes do setor agropecuário do Paraná é como o governo vai fazer para equalizar a diferença entre os juros pago pelo recursos captados e o juros cobrados dos produtores...
RicardoOlha, todo início de safra damos um balanço, com várias reuniões em que vemos qual a capacidade do Tesouro para este objetivo. Em função da capacidade do Tesouro medimos o tamanho da assistência que vai ser dada. Então quando o governo anunciou que vamos emprestar R$ 10 milhões, destes 10 5,5 bilhões terão taxas equalizadas, é porque na dotação do Tesouro tem isso. Então o Banco capta no mercado, e paga mais caro e o tesouro paga a diferença, que permite praticarmos as taxas de 8,75% e 5,75% para pequenos produtores. Isso está tudo organizado, e os cortes orçamentários que o gorverno tem promovido não reduziu em nada o valo para cobrir esta diferença dos juros. Temos o conforto de dizer que ao longo da safra teremos os recursos previstos liberados.
FolhaA alta dos juros prejudicou de alguma forma a captação dos recursos destinados à agricultura oriundos dos depósitos à vista?
RicardoNão, no BB não houve influência, nós estamos captando no mesmo nível. Aqueles 25% destinados para a agricultura, o BB está aplicando normalmente. Consta que os outros banco não estão com a mesma disponibilidade, o que acaba trazendo uma pressão mais forte para o Banco do Brasil. Mas não houve influência da crise econômica sobre o volume de depósitos à vista.

mockup