A dívida em títulos do governo federal cresceu R$ 40,618 bilhões em janeiro, refletindo os primeiros efeitos da desvalorização do real sobre as contas públicas. Esse crescimento da dívida em apenas um mês equivale a quase o dobro da receita obtida pelo governo com a venda da Telebrás (R$ 22 bilhões) no ano passado.
O débito subiu 12,54% em apenas um mês, passando dos R$ 323,860 bilhões registrados em dezembro de 1998 para R$ 364,478 bilhões em janeiro passado. Boa parte desse incremento se deve aos juros incidentes sobre os títulos federais corrigidos pela taxa de câmbio. Com a desvalorização, os encargos somaram R$ 42,9 bilhões só em janeiro.
O Tesouro e o Banco Central deviam R$ 67,087 bilhões em títulos cambiais em dezembro de 1998. O governo havia vendido esses papéis numa tentativa de convencer o mercado de que não desvalorizaria o real, pois nessa hipótese seria o maior perdedor.
Quando a moeda passou a flutuar livremente, em janeiro, o dólar se valorizou 64%, fazendo a dívida em títulos cambiais subir para R$ 107,9 bilhões.
Os acréscimos na dívida significam incorporação de juros devidos, que tendem a ser embolsados no vencimento do papel por pessoas e empresas que compraram os títulos para se proteger da desvalorização ou para lucrar. Mas os dados sobre o prejuízo dos títulos cambiais ainda são parciais, pois o cálculo final depende da estabilização do câmbio.
Em fevereiro o dólar se valorizou mais 4,08%, o que equivale a um prejuízo adici R$ 4,402 bilhões. Mas em março o dólar se desvalorizou em cerca de 7,7%, com redução de US$ 8,652 bilhões na perda do governo.
Por enquanto, as estatísticas do BC só registraram parte dos efeitos negativos da desvalorização sobre as contas do governo. Sabe-se que, segundo dados usados no acordo com o FMI (Fundo Monetário Internacional), a desvalorização fez a dívida do setor público subir para o equivalente a 53% do PIB (Produto Interno Bruto) em janeiro, contra 42,6% em dezembro.
O BC ainda não informou quanto a dívida subiu em reais, mas, grosso modo, é possível estimar que tenha sido algo superior a R$ 90 bilhões, ou 10% do PIB. Metade desse crescimento se deve ao prejuízo com títulos cambiais. A outra metade só será explicada em abril pelo BC, mas, de antemão, são esperados efeitos na dívida externa, que é expressa em reais pelo câmbio do mês.
A dívida líquida externa, que era de R$ 59,974 bilhões em dezembro, subiu em janeiro devido à valorização de 64% do dólar e à queda das reservas em dólar do BC.


NO VERMELHO
A evolução da dívida federal em títulos desde janeiro de 98 (em R$ bilhões)
1998

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