Brasília - A dívida da União em títulos corrigidos pela variação do câmbio caiu em fevereiro ao menor nível já registrado: 6,02% do estoque. Essa queda ajudou a diminuir a percepção de risco sobre a dívida, mas concentrou as atenções em outro ponto de vulnerabilidade: a parcela da dívida corrigida pela taxa de juros, a Selic, que está em 56,6%. Dessa forma, cada decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de aumentar juros tem um custo elevado sobre o próprio governo. Os administradores da dívida pública tentam sair dessa situação vendendo mais papéis cuja remuneração é acertada previamente (prefixados).
Em fevereiro, o total da dívida pública interna em títulos chegou a R$ 845,4 bilhões, um aumento de R$ 18,7 bilhões sobre o mês anterior. Esse aumento se deveu ao fato que o total de títulos emitidos foi menor do que o valor resgatado e à incorporação dos juros sobre a dívida.
Desde o início do ano, a dívida cambial caiu US$ 14,4 bilhões (cerca de R$ 40 bilhões) puxada principalmente pelas operações do Banco Central com contratos especiais de câmbio chamados swap. Somente nos primeiros dias deste mês, a queda chega a US$ 3,5 bilhões (R$ 9,7 bilhões).
Com isso, a participação dos papéis cambiais no total da dívida que era de quase 10% (R$ 80 bilhões) em dezembro do ano passado está em 6,02% (R$ 50,9 bilhões). Esse desempenho deixou a dívida menos vulnerável às oscilações na taxa de câmbio mas, ao mesmo tempo, desviou o foco das análises sobre a trajetória da dívida pública para a parcela dos títulos que acompanham o sobe e desce da taxa Selic e que são conhecidos como pós fixados. Esses papéis, que representavam 52,41% da dívida em títulos no final de 2004, atualmente, somam 56,6%. Como a remuneração paga aos investidores depende do valor da Selic na data do vencimento, a cada alta da taxa de juros, o estoque desses títulos aumenta praticamente na mesma proporção.
Somente a alta de 0,5 ponto porcentual anunciada pelo Comitê de Política Monetária do BC (Copom), em fevereiro, terá um impacto de R$ 2,4 bilhões no estoque dessa dívida pós fixada, que fechou o mês passado em R$ 478,47 bilhões. Como a expectativa é de novas elevações dos juros, a tendência é de mais crescimento, o que afeta diretamente o saldo total do endividamento em títulos. Em fevereiro, o estoque dessa dívida cresceu R$ 18,69 bilhões, passando de R$ 826,7 bilhões, em janeiro, para R$ 845,39 bilhões. Praticamente metade da alta verificada se deveu à incorporação de juros. O restante foi por causa da vendas de títulos realizadas no período.
Por isso mesmo, o Tesouro Nacional tenta diminuir a venda dos papéis que seguem a Selic e aumentar a colocação de títulos prefixados que, por terem a remuneração definida na hora da negociação, são considerados de melhor qualidade e reduzem a exposição da dívida à taxa de juros. No entanto, desde o final do ano passado, a participação dos títulos prefixados ficou praticamente inalterada: correspondia a 20,09% (R$ 162,76 bilhões) em dezembro e, em fevereiro, estava em 20,43% (R$ 172,75 bilhões).
A estratégia para tentar aumentar a participação dos prefixados e alongar os prazos de vencimento da dívida, inclui a venda de títulos criados há cerca de um ano e que, apesar de terem a rentabilidade fixada, garantem aos detentores o pagamento semestral de juros. Ainda assim, a negociação ainda está tímida. Desde a criação do papel, foram vendidos R$ 8,7 bilhões. ''Queremos criar mercado de acordo com a demanda. Vamos fazer isso gradualmente'', afirma Paulo Valle, coordenador da dívida pública.

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