Distância entre ricos e pobres está maior
Distância entre ricos e pobres está maior
Banco Mundial diz que a batalha pelo desenvolvimento econômico e social do planeta para o século 21 está sendo perdida
Paulo Sotero
Agência Estado
de Washington
Arquivo FolhaBird divulgou ontem seu 22º Relatório sobre DesenvolvimentoOs esforços feitos nos últimos 50 anos para melhorar a condição de vida dos povos que vivem na parte mais pobre do mundo resultaram numa mescla de sucessos e fracassos, que pode justificar tanto o otimismo como o pessimismo, sobre as perspectivas do desenvolvimento econômico e social no século 21. É o que revela o Banco Mundial (Bird) no seu 22º Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial (World Development Report WDR, na sigla em inglês).
Com a previsão do crescimento do número de necessitados, a distância entre ricos e pobres aumentando não apenas dentro dos países em desenvolvimento, mas também entre as nações industrializadas, e os recursos oficiais encolhendo, o WDR chega muito perto de afirmar que, neste momento, a batalha do desenvolvimento está sendo perdida e o mundo, andando para trás.
Perguntado pela Agência Estado se essa seria uma interpretação correta do relatório, o vice-presidente sênior e economista-chefe do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, que supervisionou a preparação do documento, foi diplomático. Eu seria um pouco mais otimista, afirmou. Diria que nós não estamos ganhando a batalha do desenvolvimento.
O relatório é um chamado à ação, no qual dizemos que chegou a hora de reafirmar o compromisso com o desenvolvimento, ir, por exemplo, além das iniciativas de redução do endividamento dos países mais pobres, aumentar a ajuda oficial ao desenvolvimento, porque temos condições de vencer a batalha.
A receita passa pelo repensamento do desenvolvimento, o tema do primeiro capítulo do trabalho, dedicado ao exame das teorias sobre o assunto à luz dos resultados das experiências que elas inspiraram. O documento dedica três capítulos ao efeito da globalização sobre o desenvolvimento em três áreas: as finanças internacionais, a integração comercial e a degradação ambiental.
A novidade do WDR está no exame do papel da descentralização na era da globalização. Com a aceleração da globalização da economia um fenômeno imposto pelas novas tecnologias de informação que transformam os modos de produção e encurtam ou até anulam as distâncias , o que definirá o futuro é a localização.
Ou seja: a crescente descentralização e transferência do poder de decisão político e econômico para as cidades, as regiões e as várias instâncias de governos subnacionais, num movimento que está relacionado com a tendência recente de democratização da vida política nas nações em desenvolvimento, nos antigos países socialistas e mesmo na China um país controlado por um regime ditatorial, mas onde o processo eleitoral já é usado em metade de suas vilas e aldeias em decisões políticas e econômicas de caráter local.
Obviamente, não há garantias. Juntas, a globalização e a descentralização podem revolucionar o panorama do desenvolvimento humano ou levar ao caos e aumentar o sofrimento humano, adverte o documento. A globalização é como uma onda gigante que pode engolir nações ou levá-las para a frente, disse ontem Stiglitz. A descentralização bem-sucedida cria uma situação na qual entidades locais e outros grupos na sociedade digamos, a tripulação do barco ficam livres para exercer autonomia individual, mas têm também incentivos para trabalhar conjuntamente.
Tirar proveito das oportunidades e evitar os riscos que os dois fenômenos oferecem será o grande desafio dos governos das nações em desenvolvimento nos próximos anos, afirma o WRD. A globalização e a descentralização estão transformando muitos aspectos da nossa experiência humana hoje e os países prosperarão ou fracassarão dependendo da eficácia com que agarrarem essas duas forças e controlarem suas energias, disse o economista Shahid Yusuf, que dirigiu a equipe de dez pessoas incumbida da preparação do estudo.
O presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, lança um alerta na carta de apresentação do WRD. Até agora, a análise econômica tem-se concentrado no ataque à globalização, dando muito menos atenção às forças da descentralização, escreveu Wolfensohn. Nos dois casos, contudo, o que mais importa é ir além dos conceitos tradicionais de crescimento econômico e pôr as pessoas a sua saúde, seu bem-estar, sua educação, as oportunidades (para avançar) e suas chances de inclusão (econômica e social) no centro da agenda do desenvolvimento no século 21.
Bem conduzida, a descentralização pode resultar em governos mais eficientes e sensíveis às demandas da sociedade, sustenta o WRD. Nesse cenário, haverá menos espaço para negócios secretos, mais exigências de responsabilidades (dos governos pelos governados) e um distanciamento maior do autoritarismo praticado em várias partes do mundo entre os anos 60 e 80, afirmam os autores do WDR.
No entanto, a descentralização pode, também, produzir efeitos negativos, seja transferindo a governos locais mais responsabilidades do que eles estão preparados para assumir na construção da infra-estrutura e no fornecimento de serviços, seja se tornando um obstáculo à estabilidade macroeconômica e, em consequência, um inibidor do crescimento necessário ao desenvolvimento.





