A pequena diferença entre os preços de passagens de ônibus e aviões - que aplicam descontos de 20% a 60% nas tarifas desde março - está criando um novo perfil de passageiro. Famílias e profissionais liberais começam a usar o transporte aéreo cada vez com mais frequência. Há cinco meses, 85% do público frequentador de aeroportos (fora de temporada) era formado por empresários, segundo o gerente da Garcia Tur, Gilberto de Oliveira. ‘‘Hoje, esse mercado já está mesclado’’.
As empresas de transporte rodoviário sentem ‘‘na carne’’ o outro lado da moeda. Segundo a Viação Garcia, de março a julho deste ano as vendas das passagens dos ônibus leito caíram cerca de 30% em relação ao mesmo período de 97. O assessor da gerência geral da empresa, José Eduardo Chaves, acredita que os carros leitos podem desaparecer das estradas caso as promoções das companhias aéreas persistam por muito tempo. No início deste mês, a Garcia resolveu alternar os dias das viagens dos ônibus leito para São Paulo e Curitiba, via Apucarana, que antes era diário. ‘‘Tivemos que fazer ajustes para tentar aumentar a taxa de ocupação nos outros dois carros. Para ser viável, esta taxa não pode ser inferior a 70%’’, diz Chaves. A empresa mantém diariamente um ônibus leito para São Paulo e outro para Curitiba. ‘‘Temos a opção de diminuir mais a frequência tirando de linha o carro via Apucarana, caso as quedas continuem. Ainda é uma gordurinha que podemos queimar’’.
Chaves conta que o movimento geral do transporte rodoviário caiu 18% nos últimos dois anos. ‘‘Desde janeiro, a queda é de 13%’’, calcula. A diminuição no serviço se deve ao barateamento do preço dos combustíveis e à facilidade de compra de carros usados, segundo ele. Há dez anos, a Garcia tinha uma frota de 60 ônibus leito. Atualmente, são 30. O assessor da empresa considera a guerra de preços travadas pelas companhias aéreas uma ‘‘autofagia’’. ‘‘O sistema americano faliu por causa desta disputa entre concorrentes’’.
A passagem de avião mais barata para São Paulo atualmente é da Interbrasil, que custa R$ 69, mais taxa de embarque (R$ 7,20). O percurso leva cerca de uma hora. No ônibus leito da Garcia, a viagem de ida para o mesmo destino demora sete horas e custa R$ 48,05. Neste mês, os preços das passagens rodoviárias intermunicipais aumentaram 3% e, os das interestaduais, 4%.
O gerente da Garcia Tur, Gilberto de Oliveira, lembra aos interessados que os descontos nos bilhetes aéreos são obtidos nas compras antecipadas. ‘‘Os passageiros devem fazer reservas 15 dias antes da viagem para garantir as tarifas promocionais’’. É que as tarifas com descontos referem-se a apenas 30% ou 35% dos assentos dos aviões. ‘‘Na tarifa mais barata, há cerca de sete lugares numa aeronave com 100 poltronas. E se a taxa de ocupação estiver alta, às vezes a companhia nem abre a promoção’’.
Ele diz que muita gente tem comprado ‘‘uma perna só’’ na agência, embarcando para São Paulo de avião e voltando de leito. Desde março, Oliveira calcula um acréscimo na venda de passagens aéreas de 100% em relação ao mesmo período do ano passado. ‘‘O faturamento aumentou mas não na mesma proporção’’, diz ele, que teve que contratar mais um funcionário.
O diretor da Associação Brasileira das Agências de Viagens (Abave)/Regional de Londrina, Valentin Aparecido Martins, diz que as tarifas promocionais têm vantagens e desvantagens. ‘‘Mas o saldo acaba sendo positivo porque estas tarifas possibilitaram que uma camada social que nunca tinha andado de avião, tivesse acesso a este meio’’.Josué de CarvalhoChaves, da Viação
Garcia, diz que os
carros-leito podem
sumir das estradasCláudia Lopes

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