Jornalista pioneiro na satíra política, Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly ou Apporelly (1895-1971) encarnava um personagem frasista conhecido na imprensa como Barão de Itararé. “Os homens nascem iguais mas no dia seguinte já são diferentes” é uma das máximas atribuídas ao falso nobre que se tornou um dos mais perspicazes observadores da vida nacional.

A investigação mais profunda sobre a renda das famílias realizada no Brasil nesta década, contida no questionário do Censo 2022 e divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) no trimestre final do ano passado, aponta que o CEP dentro de universos restritos pode determinar a realidade encontrada para quem nasce paranaense, mesmo quando os municípios mais pobres, remotos e esquecidos são retirados das comparações.

Um levantamento da Folha feito com base nestes dados mostra que entre os 40 municípios mais populosos do Estado - grupo que forma os 10% com mais habitantes e onde vivem cerca de dois terços dos moradores - revela uma disparidade de renda domiciliar da ordem de 131%.

Enquanto Curitiba tem renda domiciliar mensal per capita de R$3.138, a vizinha Almirante Tamandaré, 17º município mais populoso segundo o censo, a média é de apenas R$ 1.353. No interior, a oscilação também chama a atenção. A diferença entre Maringá (R$2.647), a interiorana mais rica da lista, e Prudentópolis (R$ 1.411), a mais pobre, é de 87,6%.

Na segunda mais populosa região metropolitana do Estado, a desigualdade na renda média dos municípios também é um traço social importante. Londrina tem uma renda de R$ 2.333, 106% maior que os R$ 1.129 de Tamarana. Mesmo em comparação com a média dos 22 municípios da RML, a riqueza de Londrina é substancialmente maior (51%). No caso de Curitiba, a renda é 40,4% maior que a média da elite dos municípios.

Apesar da posição privilegiada de Londrina no ranking, com lugar garantido no pódio estadual, a diferença para as duas primeiras é considerável. O valor de Curitiba é aproximadamente 34,5% maior, enquanto o de Maringá é 13,46% superior. A distância para Florianópolis (R$ 3.636), no topo das grandes cidades do Sul, é ainda maior. A capital catarinense tem renda domiciliar 55% maior que Londrina. No entanto, Londrina se sai bem na comparação com Caxias do Sul (R$ 2.331) e Joinville (R$ 2.261), sempre apontadas como polos em ascensão na economia regional.

É preciso lembrar que o IBGE divulga anualmente dados de renda domiciliar per capita que fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C) com dados mais recentes, mas que revelam apenas os números nacionais, estaduais e das capitais obtidos por uma amostragem do total. No caso dos dados utilizados pela reportagem, eles são levantados pelos recenseadores em todos os domicílios e se referem a 2022 (quando o salário mínimo era de R$1.212), com a divulgação abrangendo todos os municípios.

A Folha também compilou dados sobre o quanto desta renda mensal per capita das famílias advém do trabalho, excluindo o dinheiro das aposentadorias, das pensões, dos programas sociais de transferência de renda, das aplicações financeiras, dos lucros e aluguéis de imóveis.

A participação do trabalho no total da renda é encarada pelos especialistas como um termômetro do dinamismo econômico dos municípios. No caso da elite dos municípios paranaenses, os destaques positivos são Fazenda Rio Grande (88%), São José dos Pinhais (85%), Sarandi (85%), todos vizinhos aos dois municípios mais ricos, Curitiba e Maringá. Apenas quatro municípios estão abaixo de Londrina (78%) neste quesito, Ibiporã (77%), União da Vitória (75%), Prudentópolis (74%) e Cornélio Procópio (73%).

Na Região Metropolitana de Londrina, três municípios têm mais de 80% da renda domiciliar obtida pelo trabalho, Arapongas (81%), Jaguapitã (80%) e Sabáudia (80%), enquanto as menores participações estão em Uraí, Centenário do Sul (ambas com 67%) e Rancho Alegre (63%).

Em comparação com as maiores cidades do Sul do País, Londrina (78%) supera apenas Porto Alegre (72%). No rol, destaque para Cascavel (84%) e Joinville (82%).

“As desigualdades são fenômenos persistentes e estão aumentando, incluindo em países desenvolvidos. Nas regiões metropolitanas, os municípios-polo têm renda mais elevada por ter uma estrutura produtiva que favorece a renda dos trabalhadores, em especial na administração pública, com mais presença do governo estadual, por exemplo. Além disso, a população rural, cujo rendimento domiciliar per capita é menor porque as famílias são mais numerosas, é muito menor no município polo do que nos vizinhos. Outro fator é a estrutura etária mais envelhecida”, comenta Julio Takeshi Suzuki Júnior, diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), autarquia de estudos e pesquisa que apoia a Secretaria Estadual de Planejamento.

Sobre a variação de participação da renda do trabalho na renda dos domicílios, Suzuki lembra que a intensidade do fluxo migratório explica a disparidade. “Nos municípios que recebem mais migrantes, a estrutura etária fica mais jovem, com mais moradores em idade produtiva nos domicílios. Um exemplo é o caso de Fazenda Rio Grande”, afirma.

Para o professor Carlos Roberto Ferreira, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina, a renda domiciliar per capita reflete as vantagens que alguns municípios têm sobre outros, como localização, importância regional, nível de escolarização e industrialização. “É por isso que a renda de Curitiba é maior que a de Maringá e a de Maringá é maior que a de Londrina”, explica o estudioso em distribuição de renda. “A vantagem, por exemplo, de Maringá sobre Londrina pode ser explicada porque a primeira tem uma agroindústria mais forte, enquanto a segunda tem um mercado de trabalho onde predomina o comércio, que tem salários mais baixos”, compara. “As disparidades dentro de uma região metropolitana e nas diferentes regiões do Estado estão muito relacionadas à mão-de-obra especializada. As cidades que conseguem reter mais trabalhadores com curso superior tendem a ter uma renda domiciliar mais alta”.

O número de famílias muito ricas no município também eleva a média da renda domiciliar. Para ele, esta concentração pode explicar os bons números de Londrina, município que abriga uma elite do agronegócio em busca de serviços sofisticados. “Não é raro na cidade lançamentos de altíssimo padrão no setor imobiliário que são vendidos rapidamente”, exemplifica. “É um percentual pequeno da população com renda muito alta”.

Não é segredo para ninguém que a desigualdade é um traço da sociedade brasileira, mas é sempre bom lembrar suas origens. “A desigualdade de renda é uma construção que vem desde o Brasil Colônia. Piorou bastante com a escalada constante da escravidão e depois com o fim dela, que deixou um enorme contingente de brasileiros à própria sorte. À medida que o País se urbanizou rapidamente, esta disparidade de renda se tornou amplamente visível”, esclarece. “Além deste forte traço racial da desigualdade brasileira, há também o de gênero e o educacional, tanto o de tempo na escola quanto o da qualidade de ensino. Há muito, muito mesmo a ser feito, mas depende de uma decisão política firme, o que não se percebe em nenhuma das esferas do poder público”.


NÚMEROS

RENDA DOMICILIAR MENSAL PER CAPITA (em R$)

Lista com os 40 municípios mais populosos do estado conforme o Censo de 2022 realizado pelo IBGE

Curitiba 3.138

Maringá 2.647

Londrina 2.333

Pato Branco 2.310

Francisco Beltrão 2.278

Cascavel 2.217

Toledo 2.165

Pinhais 2.123

Marechal Cândido Rondon 2.069

Campo Mourão 2.064

Medianeira 2.049

Umuarama 1.959

Cornélio Procópio 1.920

Foz do Iguaçu 1.911

Ponta Grossa 1.892

Cianorte 1.868

São José dos Pinhais 1.824

Paranavaí 1.811

Arapongas 1.778

Apucarana 1.770

Irati 1.766

Campo Largo 1.755

Cambé 1.754

Guarapuava 1.704

Telêmaco Borba 1.683

Rolândia 1.663

Ibiporã 1.652

União da Vitória 1.629

Araucária 1.601

Paranaguá 1.571

Castro 1.568

Colombo 1.527

Palmas 1.515

Campina Grande do Sul 1.514

Sarandi 1.462

Fazenda Rio Grande 1.448

Paiçandu 1.424

Piraquara 1.420

Prudentópolis 1.411

Almirante Tamandaré 1.353

O valor de Curitiba é aproximadamente 34,5% maior que o de Londrina.

O valor de Londrina representa cerca de 74,3% do valor da capital.

O valor de Maringá é aproximadamente 13,46% maior que o de Londrina.

O valor de Londrina representa cerca de 88,14% do valor de Maringá.

RENDA DOMICILIAR PER CAPITA NA REGIÃO METROPOLITANA (em R$)

Londrina 2.333

Sertanópolis 1.843

Arapongas 1.778

Cambé 1.754

Sertaneja 1.730

Guaraci 1.709

Rolândia 1.663

Ibiporã 1.652

Porecatu 1.614

Pitangueiras 1.610

Sabáudia 1.580

Uraí 1.579

Primeiro de Maio 1.562

Alvorada do Sul 1.539

Jaguapitã 1.517

Bela Vista do Paraíso 1.399

Rancho Alegre 1.381

Lupionópolis 1.332

Prado Ferreira 1.322

Assaí 1.275

Jataizinho 1.263

Centenário do Sul 1.244

Florestópolis 1.226

Miraselva 1.212

Tamarana 1.129

Renda domiciliar per capita dos municípios mais populosos do Sul do País (em R$)

Florianópolis 3.636

Porto Alegre 3.203

Curitiba 3.138

Maringá 2.647

Blumenau 2.634

Londrina 2.333

Caxias do Sul 2331

Joinville 2.261

Cascavel 2.217

Ponta Grossa 1.892

Renda domiciliar per capita das capitais mais populosas do País (em R$)

Curitiba 3.138

Brasília 2.999

Belo Horizonte 2.749

São Paulo 2.713

Goiânia 2.669

Rio de Janeiro 2.515

Recife 2.285

Salvador 1.770

Fortaleza 1.669

Manaus 1.285

Rendimento médio mensal domiciliar, que soma os ganhos de toda a família, per capita, ou seja, dividido por cada morador em domicílios particulares permanentes, em R$, a valores de julho de 2022

% DA RENDA DAS FAMÍLIAS OBTIDAS PELO TRABALHO

40 municípios mais populosos do Estado

Fazenda Rio Grande 88

São José dos Pinhais 85

Sarandi 85

Almirante Tamandaré 84

Cascavel 84

Colombo 84

Paiçandu 84

Pato Branco 84

Araucária 83

Campina Grande do Sul 83

Castro 83

Marechal Cândido Rondon 83

Palmas 83

Foz do Iguaçu 82

Francisco Beltrão 82

Guarapuava 82

Medianeira 82

Pinhais 82

Piraquara 82

Toledo 82

Arapongas 81

Campo Mourão 81

Cianorte 81

Maringá 81

Umuarama 81

Campo Largo 80

Apucarana 79

Paranavaí 79

Ponta Grossa 79

Rolândia’ 79

Telêmaco Borba 79

Cambé 78

Curitiba 78

Irati 78

Londrina 78

Paranaguá 78

Ibiporã 77

União da Vitória 75

Prudentópolis 74

Cornélio Procópio 73

Região Metropolitana de Londrina

Arapongas 81

Jaguapitã 80

Sabáudia 80

Rolândia 79

Londrina 78

Cambé 78

Ibiporã 77

Prado Ferreira 77

Guaraci 77

Pitangueiras 76

Sertanópolis 75

Miraselva 75

Jataizinho 73

Bela Vista do Paraíso 72

Florestópolis 72

Tamarana 72

Alvorada do Sul 72

Sertaneja 72

Assaí 70

Porecatu 69

Lupionópolis 69

Primeiro de Maio 69

Uraí 67

Centenário do Sul 67

Rancho Alegre 63

Os 10 municípios mais populosos do Sul do Brasil

Cascavel 84

Joinville 82

Maringá 81

Blumenau 81

Ponta Grossa 79

Curitiba 78

Londrina 78

Florianópolis 78

Caxias do Sul 78

Porto Alegre 72

Renda mensal do trabalho é um cálculo extraído do rendimento médio mensal de todos os trabalhos das pessoas de 14 anos, ocupadas, em R$, a valores de julho de 2022

O peso do trabalho na renda é a participação do valor do rendimento nominal médio mensal de todos os trabalhos na composição do rendimento domiciliar dos moradores em domicílios particulares permanentes ocupados, em % do total

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