Disparidade de riqueza persiste até entre maiores cidades do Paraná
Combate à desigualdade é desafio também em recortes regionais. Levantamento da FOLHA mostra diferença de 100% na Região Metropolitana de Londrina
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Combate à desigualdade é desafio também em recortes regionais. Levantamento da FOLHA mostra diferença de 100% na Região Metropolitana de Londrina
Lúcio Flávio Moura 

Jornalista pioneiro na satíra política, Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly ou Apporelly (1895-1971) encarnava um personagem frasista conhecido na imprensa como Barão de Itararé. “Os homens nascem iguais mas no dia seguinte já são diferentes” é uma das máximas atribuídas ao falso nobre que se tornou um dos mais perspicazes observadores da vida nacional.
A investigação mais profunda sobre a renda das famílias realizada no Brasil nesta década, contida no questionário do Censo 2022 e divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) no trimestre final do ano passado, aponta que o CEP dentro de universos restritos pode determinar a realidade encontrada para quem nasce paranaense, mesmo quando os municípios mais pobres, remotos e esquecidos são retirados das comparações.
Um levantamento da Folha feito com base nestes dados mostra que entre os 40 municípios mais populosos do Estado - grupo que forma os 10% com mais habitantes e onde vivem cerca de dois terços dos moradores - revela uma disparidade de renda domiciliar da ordem de 131%.
Enquanto Curitiba tem renda domiciliar mensal per capita de R$3.138, a vizinha Almirante Tamandaré, 17º município mais populoso segundo o censo, a média é de apenas R$ 1.353. No interior, a oscilação também chama a atenção. A diferença entre Maringá (R$2.647), a interiorana mais rica da lista, e Prudentópolis (R$ 1.411), a mais pobre, é de 87,6%.
Na segunda mais populosa região metropolitana do Estado, a desigualdade na renda média dos municípios também é um traço social importante. Londrina tem uma renda de R$ 2.333, 106% maior que os R$ 1.129 de Tamarana. Mesmo em comparação com a média dos 22 municípios da RML, a riqueza de Londrina é substancialmente maior (51%). No caso de Curitiba, a renda é 40,4% maior que a média da elite dos municípios.
Apesar da posição privilegiada de Londrina no ranking, com lugar garantido no pódio estadual, a diferença para as duas primeiras é considerável. O valor de Curitiba é aproximadamente 34,5% maior, enquanto o de Maringá é 13,46% superior. A distância para Florianópolis (R$ 3.636), no topo das grandes cidades do Sul, é ainda maior. A capital catarinense tem renda domiciliar 55% maior que Londrina. No entanto, Londrina se sai bem na comparação com Caxias do Sul (R$ 2.331) e Joinville (R$ 2.261), sempre apontadas como polos em ascensão na economia regional.
É preciso lembrar que o IBGE divulga anualmente dados de renda domiciliar per capita que fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-C) com dados mais recentes, mas que revelam apenas os números nacionais, estaduais e das capitais obtidos por uma amostragem do total. No caso dos dados utilizados pela reportagem, eles são levantados pelos recenseadores em todos os domicílios e se referem a 2022 (quando o salário mínimo era de R$1.212), com a divulgação abrangendo todos os municípios.
A Folha também compilou dados sobre o quanto desta renda mensal per capita das famílias advém do trabalho, excluindo o dinheiro das aposentadorias, das pensões, dos programas sociais de transferência de renda, das aplicações financeiras, dos lucros e aluguéis de imóveis.
A participação do trabalho no total da renda é encarada pelos especialistas como um termômetro do dinamismo econômico dos municípios. No caso da elite dos municípios paranaenses, os destaques positivos são Fazenda Rio Grande (88%), São José dos Pinhais (85%), Sarandi (85%), todos vizinhos aos dois municípios mais ricos, Curitiba e Maringá. Apenas quatro municípios estão abaixo de Londrina (78%) neste quesito, Ibiporã (77%), União da Vitória (75%), Prudentópolis (74%) e Cornélio Procópio (73%).
Na Região Metropolitana de Londrina, três municípios têm mais de 80% da renda domiciliar obtida pelo trabalho, Arapongas (81%), Jaguapitã (80%) e Sabáudia (80%), enquanto as menores participações estão em Uraí, Centenário do Sul (ambas com 67%) e Rancho Alegre (63%).
Em comparação com as maiores cidades do Sul do País, Londrina (78%) supera apenas Porto Alegre (72%). No rol, destaque para Cascavel (84%) e Joinville (82%).
“As desigualdades são fenômenos persistentes e estão aumentando, incluindo em países desenvolvidos. Nas regiões metropolitanas, os municípios-polo têm renda mais elevada por ter uma estrutura produtiva que favorece a renda dos trabalhadores, em especial na administração pública, com mais presença do governo estadual, por exemplo. Além disso, a população rural, cujo rendimento domiciliar per capita é menor porque as famílias são mais numerosas, é muito menor no município polo do que nos vizinhos. Outro fator é a estrutura etária mais envelhecida”, comenta Julio Takeshi Suzuki Júnior, diretor-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), autarquia de estudos e pesquisa que apoia a Secretaria Estadual de Planejamento.
Sobre a variação de participação da renda do trabalho na renda dos domicílios, Suzuki lembra que a intensidade do fluxo migratório explica a disparidade. “Nos municípios que recebem mais migrantes, a estrutura etária fica mais jovem, com mais moradores em idade produtiva nos domicílios. Um exemplo é o caso de Fazenda Rio Grande”, afirma.
Para o professor Carlos Roberto Ferreira, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina, a renda domiciliar per capita reflete as vantagens que alguns municípios têm sobre outros, como localização, importância regional, nível de escolarização e industrialização. “É por isso que a renda de Curitiba é maior que a de Maringá e a de Maringá é maior que a de Londrina”, explica o estudioso em distribuição de renda. “A vantagem, por exemplo, de Maringá sobre Londrina pode ser explicada porque a primeira tem uma agroindústria mais forte, enquanto a segunda tem um mercado de trabalho onde predomina o comércio, que tem salários mais baixos”, compara. “As disparidades dentro de uma região metropolitana e nas diferentes regiões do Estado estão muito relacionadas à mão-de-obra especializada. As cidades que conseguem reter mais trabalhadores com curso superior tendem a ter uma renda domiciliar mais alta”.
O número de famílias muito ricas no município também eleva a média da renda domiciliar. Para ele, esta concentração pode explicar os bons números de Londrina, município que abriga uma elite do agronegócio em busca de serviços sofisticados. “Não é raro na cidade lançamentos de altíssimo padrão no setor imobiliário que são vendidos rapidamente”, exemplifica. “É um percentual pequeno da população com renda muito alta”.
Não é segredo para ninguém que a desigualdade é um traço da sociedade brasileira, mas é sempre bom lembrar suas origens. “A desigualdade de renda é uma construção que vem desde o Brasil Colônia. Piorou bastante com a escalada constante da escravidão e depois com o fim dela, que deixou um enorme contingente de brasileiros à própria sorte. À medida que o País se urbanizou rapidamente, esta disparidade de renda se tornou amplamente visível”, esclarece. “Além deste forte traço racial da desigualdade brasileira, há também o de gênero e o educacional, tanto o de tempo na escola quanto o da qualidade de ensino. Há muito, muito mesmo a ser feito, mas depende de uma decisão política firme, o que não se percebe em nenhuma das esferas do poder público”.
NÚMEROS
RENDA DOMICILIAR MENSAL PER CAPITA (em R$)
Lista com os 40 municípios mais populosos do estado conforme o Censo de 2022 realizado pelo IBGE
Curitiba 3.138
Maringá 2.647
Londrina 2.333
Pato Branco 2.310
Francisco Beltrão 2.278
Cascavel 2.217
Toledo 2.165
Pinhais 2.123
Marechal Cândido Rondon 2.069
Campo Mourão 2.064
Medianeira 2.049
Umuarama 1.959
Cornélio Procópio 1.920
Foz do Iguaçu 1.911
Ponta Grossa 1.892
Cianorte 1.868
São José dos Pinhais 1.824
Paranavaí 1.811
Arapongas 1.778
Apucarana 1.770
Irati 1.766
Campo Largo 1.755
Cambé 1.754
Guarapuava 1.704
Telêmaco Borba 1.683
Rolândia 1.663
Ibiporã 1.652
União da Vitória 1.629
Araucária 1.601
Paranaguá 1.571
Castro 1.568
Colombo 1.527
Palmas 1.515
Campina Grande do Sul 1.514
Sarandi 1.462
Fazenda Rio Grande 1.448
Paiçandu 1.424
Piraquara 1.420
Prudentópolis 1.411
Almirante Tamandaré 1.353
O valor de Curitiba é aproximadamente 34,5% maior que o de Londrina.
O valor de Londrina representa cerca de 74,3% do valor da capital.
O valor de Maringá é aproximadamente 13,46% maior que o de Londrina.
O valor de Londrina representa cerca de 88,14% do valor de Maringá.
RENDA DOMICILIAR PER CAPITA NA REGIÃO METROPOLITANA (em R$)
Londrina 2.333
Sertanópolis 1.843
Arapongas 1.778
Cambé 1.754
Sertaneja 1.730
Guaraci 1.709
Rolândia 1.663
Ibiporã 1.652
Porecatu 1.614
Pitangueiras 1.610
Sabáudia 1.580
Uraí 1.579
Primeiro de Maio 1.562
Alvorada do Sul 1.539
Jaguapitã 1.517
Bela Vista do Paraíso 1.399
Rancho Alegre 1.381
Lupionópolis 1.332
Prado Ferreira 1.322
Assaí 1.275
Jataizinho 1.263
Centenário do Sul 1.244
Florestópolis 1.226
Miraselva 1.212
Tamarana 1.129
Renda domiciliar per capita dos municípios mais populosos do Sul do País (em R$)
Florianópolis 3.636
Porto Alegre 3.203
Curitiba 3.138
Maringá 2.647
Blumenau 2.634
Londrina 2.333
Caxias do Sul 2331
Joinville 2.261
Cascavel 2.217
Ponta Grossa 1.892
Renda domiciliar per capita das capitais mais populosas do País (em R$)
Curitiba 3.138
Brasília 2.999
Belo Horizonte 2.749
São Paulo 2.713
Goiânia 2.669
Rio de Janeiro 2.515
Recife 2.285
Salvador 1.770
Fortaleza 1.669
Manaus 1.285
Rendimento médio mensal domiciliar, que soma os ganhos de toda a família, per capita, ou seja, dividido por cada morador em domicílios particulares permanentes, em R$, a valores de julho de 2022
% DA RENDA DAS FAMÍLIAS OBTIDAS PELO TRABALHO
40 municípios mais populosos do Estado
Fazenda Rio Grande 88
São José dos Pinhais 85
Sarandi 85
Almirante Tamandaré 84
Cascavel 84
Colombo 84
Paiçandu 84
Pato Branco 84
Araucária 83
Campina Grande do Sul 83
Castro 83
Marechal Cândido Rondon 83
Palmas 83
Foz do Iguaçu 82
Francisco Beltrão 82
Guarapuava 82
Medianeira 82
Pinhais 82
Piraquara 82
Toledo 82
Arapongas 81
Campo Mourão 81
Cianorte 81
Maringá 81
Umuarama 81
Campo Largo 80
Apucarana 79
Paranavaí 79
Ponta Grossa 79
Rolândia’ 79
Telêmaco Borba 79
Cambé 78
Curitiba 78
Irati 78
Londrina 78
Paranaguá 78
Ibiporã 77
União da Vitória 75
Prudentópolis 74
Cornélio Procópio 73
Região Metropolitana de Londrina
Arapongas 81
Jaguapitã 80
Sabáudia 80
Rolândia 79
Londrina 78
Cambé 78
Ibiporã 77
Prado Ferreira 77
Guaraci 77
Pitangueiras 76
Sertanópolis 75
Miraselva 75
Jataizinho 73
Bela Vista do Paraíso 72
Florestópolis 72
Tamarana 72
Alvorada do Sul 72
Sertaneja 72
Assaí 70
Porecatu 69
Lupionópolis 69
Primeiro de Maio 69
Uraí 67
Centenário do Sul 67
Rancho Alegre 63
Os 10 municípios mais populosos do Sul do Brasil
Cascavel 84
Joinville 82
Maringá 81
Blumenau 81
Ponta Grossa 79
Curitiba 78
Londrina 78
Florianópolis 78
Caxias do Sul 78
Porto Alegre 72
Renda mensal do trabalho é um cálculo extraído do rendimento médio mensal de todos os trabalhos das pessoas de 14 anos, ocupadas, em R$, a valores de julho de 2022
O peso do trabalho na renda é a participação do valor do rendimento nominal médio mensal de todos os trabalhos na composição do rendimento domiciliar dos moradores em domicílios particulares permanentes ocupados, em % do total


