O Banco Central (BC) interrompeu ontem a trajetória de alta do câmbio, ao intervir no mercado por meio da venda direta de dólares. Foi a primeira ação desse tipo desde 15 de março. Segundo estimativas dos operadores, a autoridade monetária gastou entre US$ 50 milhões e US$ 150 milhões, o que contribuiu para a moeda fechar em baixa de 1,28%, cotada a R$ 2,319.
Antes da atuação no mercado à vista – que ocorreu no meio da tarde –, a instituição havia leiloado R$ 2 bilhões de títulos cambiais um pouco depois do meio-dia, para atender à forte demanda por hedge (proteção), que levou o dólar a bater na máxima de R$ 2,375 no pior momento do pregão. O BC confirmou a intervenção e, como de costume, não informou quanto vendeu.
Segundo os analistas, a atuação do BC marca uma mudança de atitude em relação ao câmbio. Nas últimas semanas, os diretores da instituição insistiram várias vezes que a intervenção só se justificava se houvesse falta de liquidez ou forte volatilidade. ‘‘Dessa vez, ficou claro que o BC queria empurrar a taxa para baixo, e não apenas resolver um problema de liquidez’’, disse o diretor de um banco estrangeiro. Segundo ele, a liquidez realmente não era das melhores, mas a combinação do leilão de títulos cambiais – realizado pelo segundo dia consecutivo – e da venda direta de dólares mostrou a disposição da autoridade monetária em quebrar a trajetória de alta da moeda.
A procura por hedge pressionou o dólar logo no início dos negócios. As cotações foram subindo aos poucos, até atingirem R$ 2,375. O BC anunciou então o leilão de R$ 2 bilhões – o dobro do ofertado na quinta-feira – de NBC-Es (títulos atrelados ao câmbio) com vencimento em 14 de março de 2002, que saíram a uma taxa máxima de 10,45% ao ano. A demanda superou novamente a oferta, ficando em R$ 3,464 bilhões. Depois do leilão, o dólar caiu para R$ 2,332. Nesse nível, muitas empresas e importadores entraram na ponta de compra, e a moeda atingiu R$ 2,342.
Foi nesse momento que o BC passou a consultar os dealers (bancos que atuam em nome da autoridade monetária). As cotações recuaram rapidamente, e o dólar chegou a ser negociado a R$ 2,309. Segundo operadores, o BC vendeu pequenos lotes de US$ 10 milhões, o que foi suficiente para fazer o dólar fechar em baixa pela primeira vez nesta semana.
O gerente de Câmbio da corretora Liquidez, Fabio Fender, explica que a alta do dólar foi alimentada principalmente pelas incertezas em relação ao impacto da crise energética sobre a economia e pelo temor de que o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) faça acusações contra o governo em seu provável discurso de renúncia.
BolsaAs atuações do Banco Central no câmbio não surtiram nem efeito psicológico na bolsa. Tampouco o recuo do presidente Fernando Henrique Cardoso na delicada questão do Código de Defesa do Consumidor sensibilizou os investidores. Pesaram mais as avaliações preocupantes do impacto do racionamento de energia sobre o desempenho das empresas. A Bovespa fechou em baixa de 1,46%, com volume financeiro de R$ 508 milhões. O índice futuro para junho recuou 2,48%, para 14.170 pontos.

mockup