‘‘É preciso fazer o bolo crescer, para depois distribuir’’. Quantas vezes o prezado leitor já deve ter visto esta frase reproduzida em inúmeros artigos, comentários, discursos de diferentes procedências, mas sempre atribuídas a um único e indignado autor: ‘‘o czar da economia nos anos 70, Delfim Netto...
O ilustre professor Dr. Leitão de Abreu, que foi chefe da Casa Civil dos presidentes Médici e Figueiredo costumava nos ensinar: ‘‘quando você tem que explicar o que disse, é sinal que já perdeu a guerra’’...
Contrariando a lição do sábio jurista e saudoso amigo, vou explicar pela enésima vez o que foi dito e o que não foi dito, em atenção, pelo menos às gerações mais jovens, inclusive de jornalistas que não viveram aquela época e inocentemente continuam a me atribuir o dito.
A frase que eu disse é muito parecida com aquela, mas com uma pequena nuance que induz a conclusões radicalmente diversas das que são referidas nos comentários. A frase correta é a seguinte: ‘‘Não se pode distribuir o que não foi produzido’’. Creio que qualquer pessoa pode concordar com isso, que aliás é de uma transparência acaciana...
Numa certa medida é interessante que esse imbróglio reapareça de vez em quando, porque nos permite insistir na questão mais importante da economia, que é o crescimento.
Os problemas relativos ao crescimento praticamente desapareceram da mídia. E, no entanto, nunca foi tão importante manter acesa essa discussão, especialmente pelos estudantes e profissionais mais jovens, porque é o destino deles que está sendo traçado pela atual política. Claramente esta é uma política que restringe o crescimento econômico e ignora, até mesmo como hipótese, a possibilidade de melhoria na distribuição da renda.
É preciso insistir nesse fato e cobrar insistentemente do governo respostas a algumas questões fundamentais.
- Qual a explicação para se manter por tanto tempo taxas de juros escorchantes que desestimulam os investimentos produtivos, levam empresas à falência e restringem a oferta de empregos?
- Que justificativa o governo pode oferecer diante da performance medíocre das exportações? Como aceitar sem discussão as afirmações do governo no início do ano de que ‘‘exportar não importa’’ e o anúncio tardio de que ‘‘a saída está em ampliar as exportações’’?
- Até quando o governo pretende se manter de olhos fechados à necessidade de recuperação do setor agrícola, submetido a brutal restrição de créditos e exposto à competição desleal de importações subsidiadas em seus países de origem?
Todas essas questões têm íntima relação com o processo de retomada do crescimento econômico e de melhoria da distribuição de renda. São exatamente os problemas cuja discussão o governo preferiu olvidar, com sucesso, este ano. É preciso retomá-la, com urgência.
- ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal.

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